O momento exige uma forte ação política

Céli Pinto: "O impeachment é um golpe que nem legal pode ser chamado". (Foto: Guilherme Santos)

Céli Pinto: “O impeachment é um golpe que nem legal pode ser chamado”. (Foto: Guilherme Santos)

Céli Pinto (*)

Antes de qualquer tentativa de examinar o momento político se faz necessário esclarecer algumas questões preliminares. Em primeiro lugar, temos de ter claro que o evento impeachment não surgiu do nada, não foi apenas resultado da vontade de um agente político acuado pela perda de  mandato e até pela possibilidade de ser preso. O que o correu no dia 2 de dezembro é efeito de um processo que começou no segundo turno das eleições  presidenciais em 2014 e se criou ao longo do ano de 2015. A ideia de que se poderia tirar a presidenta eleita do poder por  um golpe “legal” acalentou os sonhos do grupo Aécio Neves desde  o momento em que  a presidenta Dilma foi declarada vitoriosa. Esta ideia se popularizou nas camadas mais privilegiadas da sociedade, mas não só entre elas, o que provocou  manifestações significativas em várias cidades do país, principalmente no mês de março. A eleições de Eduardo Cunha para presidente da  Câmara de Deputados não foi um acidente, ele não é um louco desvairado, um inconsequente. Ele é um deputado que soube durante todo o ano exatamente o que estava fazendo e que tem apoio dentro e fora do Congresso Nacional,  para tomar as atitudes que toma.  Ele é um personagem importante da política brasileira. Porque? Bem,  é outra questão..

Isto posto, devemos também ter presente, que o impeachment é um golpe, que nem legal pode ser chamado, pois as razões em nome do qual é clamado, não encontram guarida na Constituição. Soma-se a isto a Operação Lava-jato, que apesar de todas as suas qualidades, que não podem ser minimizadas, é seletiva em relação a  quem prende, a  quem investiga e principalmente em relação aos estranhos vazamentos de depoimentos que proporciona.

Certamente todas estas condições têm parte importante na paralisação do governo da Presidenta Dilma no anos de 2014. Mas seria simples se pudéssemos explicar um momento tão complexo  encontrando “O culpado. A falta de vontade política  do governo de construir condições para governar também foi fatal. Não se trata de voluntarismo, de culpar a personalidade de um ou outro, mas do fazer da política. Como um governo que  tem como partido principal o PT, perdeu as ruas, perdeu os jovens, perdeu os militantes? Como um governo que tem na sua conta anos de melhoria real na vida das camadas populares, pela bolsa família, pela minha casa minha vida, pelas cotas nas universidades públicas, pelo PRONATEC, pelo PROUNI, perdeu a legitimidade frente às camadas populares e às classes médias emergentes?  Como um governo que  divide o Planalto com o PMDB, que tem o vice- presidente e importantes ministérios, não consegue  montar uma base minimamente sólida na Câmara de Deputados? Como um governo que sempre apoiou os bancos e deu incentivos polpudos a algumas áreas da indústria  não tem o apoio do mundo financeiro ou dos setores industriais?

Em suma, temos, de um lado, uma oposição que se organiza desde o momento que o resultado eleitoral foi publicizado em 2014 para derrubar o governo da Presidenta Dilma, de outro, um governo isolado e paralisado. Como o país vais sair desta sinuca de  bico?

Se o governo e o PT como principal partido continuar com as mesmas estratégias temos pela frente uma crise de grandes proporções, pois a continuidade de uma processo de impeachment por longos meses é por si só desgastante e mais do que isto, com resultado final imprevisível. Os custos para o povo  brasileiro, para o democracia brasileira são incalculáveis.  Mas, não adianta ficar somente desqualificando o inimigo, até porque  a grande maioria da população brasileira sabe que Eduardo Cunha é um desqualificado.  Urge  uma mudança radical na forma de fazer política do governo.

Parece haver duas dois movimentos essenciais que o governo e o PT devem fazer. O primeiro diz respeito sua rearticulação política, não se trata de novas reformas ministeriais, mas de articulação no sentido forte da palavra. O governo  tem de alargar suas bases e isto não significa chamar Collor de Mello ou Fernando Henrique Cardoso, mas conversar com todos os setores do Congresso Nacional  que potencialmente possam refundar o governo Dilma Rousseff.  E estou pensando, nos setores progressistas dos partidos que fazem parte do governo, da REDE, dos partidos que fazem  oposição a Dilma pele  esquerda e até de alguns nomes das oposições. Refazer o núcleo duro é fundamental. Mas com muita publicidade, muito abertamente, chamando os líderes e as pessoas importantes destes grupos para conversar e para incorporar ideias e posturas. O momento exige uma forte ação política.  Evidente que esta ação pode ter muitos custos, inclusive o própria presidência. Mas não existe razão para manter o governo a qualquer custo. Um segundo movimento é o de trazer para dentro do Palácio todas as organizações  e movimentos da sociedade civil que estão se manifestando contra o impeachment: OAB; CNBB; ABCP; MST e tantas outras. Não se tratar de cooptação, trata-se de realmente incorporar estes grupos no cenário nacional. Vê-los como parceiros fundamentais para rearticular um discurso progressista na sociedade brasileira. É o momento de rearticulação.

Finalmente, se, ao fim e ao cabo, o governo Dilma conseguir vencer a crise do impeachment será um momento privilegiado para um novo pacto, que incorpore todos os setores progressistas do país tanto partidos políticos como organizações da sociedade civil. Um novo pacto que recupere a razão pela qual os eleitores do PT votaram no PT por tantos anos, que  recupere o apoio dos setores populares da população, petistas ou não. Caso contrário, novas ameaças de impeachment ou de investigações seletivas presidirão os anos que restam de governo Dilma Rousseff.

(*) Céli Pinto é Professora Titular do Departamento de História da UFRGS. Publicado originalmente no Sul21.

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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