Finados: chance de se pensar nas vidas que causam mortes

letrasJacques Távora Alfonsin

O dia 2 de novembro é feriado. Estabelecido há séculos pela igreja católica, tem sido respeitado mesmo por Estados laicos como é o brasileiro.  Encontrou-se um modo de favorecer quem tem fé numa outra vida,  acredita na ressurreição das/os pessoas falecidas. Como ensinam as religiões cristãs, aconteceu com Jesus Cristo, segundo a mesma fé.

As muitas dúvidas sobre morte, juízo final, imortalidade, eternidade, são sempre cercadas de questões para as quais a nossa razão, quando não quer confessar sua insuficiência, desvia ou encerra o assunto quase sempre bem incomodada. Se certezas indiscutíveis da própria ciência vacilam com o passar do tempo e até são desmentidas seguidamente, a mesma tolerância que se tem com elas poderia e deveria presidir juízos sobre “verdades de fé”.

São essas as responsáveis pelas verdadeiras romarias do dia 2 de novembro em direção aos cemitérios. As/os visitantes “’ressuscitam” suas/seus queridas/os, a beira de seus jazigos, a cada lembrança delas/es, no que pensaram, no que disseram, no que sentiram e no que fizeram. As lágrimas provocadas por essa recordação são de dor, sofrimento, saudade, mas não de tristeza nem de desespero.

O gesto e o sentimento falam muito nessa hora. O fato de se visitar alguém cuja ausência física é irreversível é cercado das mesmas dúvidas que a morte cria. Não há unanimidade entre quem lembra pessoas falecidas sobre a conveniência de se levar aos seus jazigos a beleza efêmera das flores e a oração gentil pela felicidade delas, quando se deseja, com fé,  estejam junto de Deus. Isso, evidentemente, tem de ser respeitado, mas a simbologia do gesto tem um sentido extraordinariamente significativo.

Além de as flores terem embelezado os principais momentos da vida da/o falecida/o, geralmente associadas a presentes que ela deu e recebeu, são testemunhas teimosas do legado mais querido deixado pela/o sepultada/o. A semelhança de sua vida com, a vida delas. As flores  nascem, crescem, vivem, se enfeitam, sofrem as agruras do tempo, a brutalidade ou a admiração e o cuidado das pessoas. As vezes adoecem, se curam, acabam murchando, caem mortas e geladas no inverno, mas a natureza sempre  se encarrega de ressuscitá-las na primavera. A vida dos seres humanos também não passa por tudo isso?

E a prece? Existe alguma palavra verdadeira de amor, amizade, afeto, simpatia, indiferente a uma serena e tranquila transcendência, um arrebatamento de tal forma sem explicação que já consagrou a expressão morrer de amor? A cada incompreensão, desencontro, rusga, numa convivência profundamente amorosa, isso tudo não cria uma sensação de morte? Tão certo como de entusiasta ressurreição se nutre o reencontro, a reconciliação, o perdão recíproco, quase sempre temperado com humor.

A lembrança e a saudade, então, de quem viveu assim e está sepultada/o, leva parentes e amigas/os aos túmulos, não para a repetição de uma cerimônia fúnebre, sem outro sentido que não o do cumprimento aborrecido e apressado de uma obrigação social.

Se nessa visita é celebrada a vida de quem morreu, sublinhadas as suas virtudes e ações em favor de outras/os, isso não acontece quando o encontro se dá com pessoas vivas mas já “mortas”, aquelas para quem a vida das outras não interessa. Se das mortas “só se deve recordar o bem que fez”, como já consagrou o ditado, seria razoável esperar-se e garantir-se o mesmo de quem ainda vive.

A diferença entre a pessoa viva-morta, e a morta-viva, pode ser medida na lembrança deixada por elas. A morta-viva “ressuscita” e se multiplica em muitas outras, fazendo o bem. A viva-morta está de tal forma sepultada em si mesma que não consegue ressuscitar senão o mal e a injustiça que espalha. Enfia-se no caixão do seu isolamento, faz o seu próprio enterro, encerrada em egoísmo, desconfiada de todo o mundo, explorando quem pode, enganando, “morrendo” cercada por ansiedade e preocupação com sua segurança, mesmo a custas de outrem. Não sabe que já morreu e, por isso mesmo, é uma ameaça de morte para as/os outras/os.

O dia de finados poderia servir-lhe de outra lição recolhida pela tradição popular: quem não vive para servir, não serve para viver, justamente o oposto de toda a cultura e ideologia predominante hoje no mundo. Ser superior, dominar, submeter tudo, terra e gente à sua exclusiva vontade, mesmo à custa da vida alheia, são efeitos de uma concepção de pessoa cujas leis e cujos “direitos” são a própria causa das injustiças e da morte de milhões de outras, vítimas indefesas dessa concentração de imoralidade.

Numa das mais belas orações de São Francisco, ele pede a Deus a disposição permanente de viver a serviço a todas as pessoas: “que eu não veja senão o bem em cada uma delas como Tu mesmo as vês.” Parece que o santo descobre em Deus como se deve viver como ressuscitada/o, liberto do “túmulo caiado”, onde não estão corpos humanos, mas sim apenas o ódio, a mentira, a injustiça, a corrupção e o erro.

Pode-se não ter fé em São Francisco como santo, nem acreditar em sua ressurreição junto de Deus, mas não dá para negar à sua vida de completo desapego ao dinheiro e ao poder, – senão o de servir – uma verdade capaz de apoiar o que o seu xará do Vaticano vem repetindo em suas pronunciamentos: a concentração da riqueza, própria do capitalismo moderno, é a principal causa de pobreza, da miséria e, consequentemente, mortes em toda a terra.

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