Mudanças climáticas devem aumentar ocorrência de eventos extremos no RS

Sabrina Feltes, analista ambiental da Fepam, e Paulo Brack, professor de Botânica da UFRGS, participaram da primeira edição do Ciclo de Debates sobre Mudanças Climáticas, promovido pelo Grupo de Pesquisa TEMAS (Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade). (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Sabrina Feltes, analista ambiental da Fepam, e Paulo Brack, professor de Botânica da UFRGS, participaram da primeira edição do Ciclo de Debates sobre Mudanças Climáticas, promovido pelo Grupo de Pesquisa TEMAS (Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade). (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O Sul do Brasil, especialmente o Rio Grande do Sul, é uma das regiões mais impactadas no país por eventos meteorológicos extremos, como tempestades, inundações e secas, causados pelas mudanças climáticas em curso no planeta. Projeções de cenários climáticos elaborados por instituições como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) indicam que o regime de chuvas deve ser significativamente modificado no Estado, com um aumento das precipitações. As previsões indicam um aumento da pluviometria entre 5 e 10% até 2050. Essas projeções também apontam para um aumento das temperaturas, com redução do número de dias de frio com presença de geada. Os dados foram apresentados pela engenharia química Sabrina Feltes, analista ambiental da Fundação Estadual de Proteção Ambiental do Rio Grande do Sul (Fepam), durante a primeira edição do Ciclo de Debates sobre as Mudanças Climáticas, realizada na tarde desta sexta-feira no auditório da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Promovido pelo Grupo de Pesquisa TEMAS (Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade), com apoio do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação da UFRGS, o ciclo de debates “Mudanças climáticas: o que você tem a ver com isso” quer promover um espaço de discussão multidisciplinar e de engajamento da comunidade acadêmica e demais interessados, com o objetivo de preparar participantes para a Conferência Mundial do Clima (COP 21), que ocorrerá em dezembro deste ano, em Paris.

Além de Sabrina Feltes, a primeira edição do ciclo de debates contou com a participação do biólogo Paulo Brack, professor de Botânica da UFRGS e integrante do Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais (InGá). A resposta apresentada pelos debatedores à pergunta “o que você tem a ver com as mudanças climáticas” foi simples e direta: tudo! Essas mudanças não são mais previsões que tangenciam o mundo da ficção científica, mas uma realidade vivenciada no cotidiano. E o Rio Grande tornou-se um cenário privilegiado para observar e vivenciar os primeiros impactos dessas mudanças.

Os cenários citados por Sabrina Feltes fazem parte do relatório final do Plano Ar, Clima e Energia (PACE), um projeto de cooperação firmado pela Fepam com o governo francês, iniciado em 2010 e concluído em 2011. A analista ambiental da Fundação destacou a importância do trabalho realizado neste projeto que resultou num banco de dados com informações sobre questões relacionadas ao ar, clima e energia no Rio Grande do Sul. Feltes também chamou a atenção para o problema da descontinuidade entre programas e projetos nesta área provocada por mudanças de governos. “Precisamos quebrar o paradigma de que o que vem de outra gestão não deve ser continuado”, defendeu. Outro obstáculo a ser enfrentado, acrescentou, é a resistência do mercado que, em geral, está mais preocupado com o que é mais barato e não com o que é ambientalmente melhor.

O impacto econômico e social das mudanças climáticas no RS

Além de apontar cenários sobre o futuro climático do Estado, o relatório final do PACE traz dados sobre os impactos sociais e econômicos das mudanças climáticas. Segundo uma estimativa da Defesa Civil, somente entre os meses de novembro de 2009 e janeiro de 2010, episódios climáticos extremos teriam causado cerca de R$ 3,7 bilhões de reais em prejuízos para o Estado e a população. Os prejuízos são decorrentes tanto do excesso quanto da ausência de chuva. No período entre 1985 e 2005, por exemplo, as perdas ligadas às secas no Rio Grande do Sul representaram cerca de R$ 37,2 milhões de toneladas de soja e milho. Segundo o mesmo relatório, algumas das principais consequências das mudanças climáticas no Estado devem ser as seguintes:

– O regime de chuvas deve ser significativamente modificado. O Grupo Intergovernamental de Estudos sobre Mudanças Climáticas (GIEC) registrou um aumento das precipitações no Sul do Brasil nos últimos cinquenta anos. As previsões indicam um aumento da pluviometria entre 5 e 10% daqui até 2050.

– Os diferentes cenários climáticos concordam em relação a uma tendência ao aumento das temperaturas (máximas e mínimas, redução do número de dias de geada) no Sul do Brasil, que, contudo, será menor do que no resto do país. Para o Estado do RS, projeta-se um aumento das temperaturas de 1 a 4°C.

– As mudanças climáticas podem provocar períodos mais marcados de inundação e seca. Portanto, podem ser esperadas restrições mais frequentes de abastecimento e de uso de água. As alterações da qualidade das águas também podem se tornar mais frequentes.

– O Rio Grande do Sul possui dois biomas vulneráveis e um ecossistema costeiro frágil. As mudanças climáticas vão provocar fenômenos tais como: perda ou redistribuição de habitats e de espécies conforme as modificações do clima, modificação das propriedades do solo, da fisiologia das espécies animais e vegetais, da produtividade dos ecossistemas, maiores invasões de espécies oportunistas que concorrem com espécies nativas.

“O que é mais grave é a falta de debate”

Para Paulo Brack, um dos principais obstáculos a ser superado no debate sobre as mudanças climáticas está relacionado ao espaço restrito de informação nos meios de comunicação e na sociedade. O biólogo citou como exemplo os questionamentos sobre a exploração do carvão no Rio Grande do Sul e dos recursos do pré-sal. “Não é só o mercado, uma parte importante da esquerda também não está mais preparada para esse debate. As pessoas têm direito a ter as suas opiniões sobre esses temas. O que é mais grave é que não há um ambiente mínimo de debate”, assinalou.

Brack exibiu uma entrevista em vídeo do pesquisador espanhol Antonio Turiel Martinez, formado em Matemática e doutor em Física Teórica pela Universidade Autônoma de Madri, que mantém o blog The Oil Crash. Turiel é hoje um dos principais pesquisadores sobre o tema da finitude dos recursos energéticos fósseis e vem advertindo sobre a urgência em diminuir o padrão de consumo no mundo. O discurso do crescimento econômico permanente é insustentável em função do modelo energético e do padrão de consumo de recursos e materiais que pressupõe, sustenta o pesquisador.

Na linha das advertências feitas por Turiel, Paulo Brack destacou o fato de que, em 2014, foi ultrapassada a marca de 400 partes por milhão de CO2 na atmosfera. “Nunca tínhamos chegado a esse patamar. O ano de 2014 foi declarado como o mais quente da história, em um anúncio conjunto da NASA e da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (dos EUA), que também registraram o aumento de eventos climáticos extremos no planeta”. Não há mais dúvida sobre os impactos sociais e ambientais das mudanças climáticas, disse ainda o biólogo. “Os negacionistas andam meio sumidos”, ironizou.

Paulo Brack defendeu a necessidade de repensar todo o modelo energético baseado no consumo de combustíveis fósseis e o próprio conceito de desenvolvimento. Na avaliação do biólogo, o discurso do governo brasileiro sobre o tema das mudanças climáticas é marcado pela ambiguidade. Por um lado, o Brasil vem defendendo a adoção de metas mais ambiciosas para a redução da emissão de gases causadores do efeito estufa. Por outro, segue implementando um modelo energético baseado fundamentalmente no uso de combustíveis fósseis. “Precisamos repensar o modelo automobilístico, o modelo energético e o próprio conceito de desenvolvimento”, defendeu.

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Uma ideia sobre “Mudanças climáticas devem aumentar ocorrência de eventos extremos no RS

  1. Renata

    Um Estado que investe tanto na agricultura deveria se preocupar mais com essa situação. Ao invés disso, o governo tenta extinguir a Fundação Zoobotanica, triste.

    Resposta

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