BC de junho aponta recessão e governo deve ampliar ajuste fiscal

Guilherme Mello: "Parece improvável que um governo do PT, caso opte por este caminho, consiga manter sua base social e política unificada, uma vez tendo adotado a estratégia de desenvolvimento de seus adversários por um período tão longo."

Guilherme Mello: “Parece improvável que um governo do PT, caso opte por este caminho, consiga manter sua base social e política unificada, uma vez tendo adotado a estratégia de desenvolvimento de seus adversários por um período tão longo.”

Boletim da Fundação Perseu Abramo

 O índice de atividade elaborado pelo Banco Central, o IBC-Br, indicou uma contração de 0,58% no nível de atividade econômica, resultando em uma queda de 1,89% no segundo trimestre de 2015 na comparação com o primeiro e de 3,09% na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior. A retração econômica veio em linha com o esperado pelos agentes do mercado, que previam queda de 0,56% no mês e 1,8% no segundo trimestre. No ano, o IBC-Br acumula queda de 2,58%, sendo 1,64% no resultado acumulado de 12 meses. Diante do cenário de recessão e consequente perda de arrecadação pública, o governo estuda ampliar o ajuste fiscal no ano de 2016, reduzindo as despesas obrigatórias além dos cortes já realizados nas despesas discricionárias. Caso este plano vá em frente, as regras dos benefícios sociais e da Previdência Social devem ser atingidos, além de uma elevação de impostos para permitir ao governo cumprir sua meta fiscal em meio ao período recessivo.

Comentário do economista Guilherme Mello:

O inegável momento de crise econômica vivida pelo Brasil hoje decorre de inúmeros fatores, internos e externos, políticos e econômicos, estruturais e conjunturais. Apesar disso, o discurso liberal centra fogo contra apenas dois fatores, como se fossem os únicos responsáveis pelo difícil momento da economia brasileira: o primeiro, a chamada Nova Matriz Econômica (NME), que teria alterado os preços macroeconômicos de forma “irresponsável”, levando o país à crise fiscal e de confiança em que se encontra; o segundo, a Constituição de 1988 (CF-88), que ao prover extensos direitos sociais, teria criado uma estrutura de gastos públicos incompatível com a realidade econômica de um país em desenvolvimento. Este diagnóstico pueril e simplório está sendo bastante efetivo para conquistar “corações e mentes” de muitos atores importantes do debate público, pouco afeitos à complexidade dos fenômenos sociais e econômicos, em busca sempre de respostas simples e definitivas.

O problema é que, uma vez retomada a condução ortodoxa da política macroeconômica (em todas as esferas, cambial, monetária e fiscal), os resultados parecem ser cada vez piores do que o inicialmente esperado, indicando que a realidade complexa não cabe nos pobres modelos e argumentos econômicos simplórios propostos por estes economistas. A esperança de retomada breve ou mesmo no longo prazo se esvaiu, sendo que hoje até o mais empedernido defensor do ajuste admite que, mesmo com a aprovação de todas as medidas, só há esperança de retomada de um crescimento fraco a partir de 2017. Antes disso, o discurso liberal (colocado em prática) já terá eliminado vários direitos sociais duramente adquiridos, diversos programas de distribuição de renda e conhecimento, além do ataque frontal às bases do estado de bem-estar em construção no Brasil a partir da CF-88.

Isso para não falar da recessão, desemprego e queda salarial provocados pelo austericídio macroeconômico proposto por estes economistas, que atribuem ao mercado de trabalho aquecido o maior motivo da crise do setor industrial. Parece improvável que um governo do PT, caso opte por este caminho, consiga manter sua base social e política unificada, uma vez tendo adotado a estratégia de desenvolvimento de seus adversários por um período tão longo.

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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