Os últimos alfaiates: Costurar e vestir sob medida, uma arte ameaçada de extinção

O alfaiate Rovídio Colatto conta com orgulho a sua história e fala com paixão da profissão que abraçou na metade do século passado e que conta com cada vez menos seguidores |Foto: Guilherme Santos/Sul21

O alfaiate Rovídio Colatto conta com orgulho a sua história e fala com paixão da profissão que abraçou na metade do século passado e que conta com cada vez menos seguidores |Foto: Guilherme Santos/Sul21

“O único homem que eu conheço que se comporta sensatamente é o meu alfaiate; ele toma minhas medidas novamente a cada vez que ele me vê. O resto continua com suas velhas medidas e espera que eu me encaixe nelas”. A frase de George Bernard Shaw retrata bem uma das principais virtudes de uma profissão que está desaparecendo no Brasil. A arte de tomar medidas, de cortar e costurar tecidos, da alfaiataria vem sendo substituída nas últimas décadas pela produção massificada de roupas em tamanhos e formatos padrões. A perda não é só em elegância. Há um vasto conhecimento que começou a ser construído e acumulado nos séculos XII e XIV na Europa e que chegou ao Brasil com a corte portuguesa. Valorizar as medidas de cada um, ter paciência e capacidade de observação para tomá-las e arte nas mãos e nos olhos para transformá-las em vestimentas adequadas a cada corpo: essas são algumas das práticas e dos talentos que os alfaiates carregam há séculos.

No Rio Grande do Sul, eles são uma espécie em extinção. Um dos raros que ainda está na ativa, prossegue com seu trabalho de produzir roupas sob medida em um discreto ateliê situado na rua Jerônimo Coelho, há menos de uma quadra da Praça da Matriz, que concentra os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. O alfaiate Rovídio Colatto, 88 anos, produz calças, casacos e outras peças em uma antiga máquina Crosley, que tem mais ou menos a sua idade e já confeccionou algumas centenas de vestimentas. O seu atelier guarda uma relíquia: uma máquina de costura alemã de aproximadamente 200 anos de vida, produzida toda em aço. Segundo ele, foi a primeira máquina de costura produzida na Alemanha.

Colatto conta com orgulho a sua história e fala com paixão da profissão que abraçou na metade do século passado e que conta com cada vez menos seguidores. Ele começou a estudar em uma alfaiataria em 1945, no município de Vacaria (RS), um aprendizado de cinco anos que se estenderia até 1950. Além disso, ficou mais um ano, aperfeiçoando seus conhecimentos até abrir seu estabelecimento próprio, na mesma cidade. Naquela época, conta Colatto, Vacaria era uma cidade pequena, mas tinha mais de dez alfaiatarias. A indústria do vestuário era muito pouco desenvolvida na época, e quase todas as roupas eram feitas todas sob medida. “Aqui no Estado, só tinha a Renner e o Guaspari, o resto era tudo feito a mão”, lembra o alfaiate, que completa 88 anos no dia 12 de agosto.

Colatto produz calças, casacos e outras peças em uma antiga máquina Crosley, que tem mais ou menos a sua idade e já confeccionou algumas centenas de vestimentas |(Foto: Guilherme Santos/Sul21

Colatto produz calças, casacos e outras peças em uma antiga máquina Crosley, que tem mais ou menos a sua idade e já confeccionou algumas centenas de vestimentas |(Foto: Guilherme Santos/Sul21)

A relação da alfaiataria com a política

Neto de italianos, ficou trabalhando durante 25 anos em Vacaria até que, em 1975, estimulado por seu conterrâneo, cliente e amigo Synval Guazelli, nomeado pela ditadura como governador do Rio Grande do Sul, decidiu se mudar para Porto Alegre. Na política, Colatto e Guazelli não estavam do mesmo lado. O primeiro era brizolista ferrenho, enquanto o segundo era da Arena. Mas eles se criaram juntos em Vacaria, tinham a mesma idade e eram amigos. “Ele era deputado federal na época e me contou que estava sendo cotado para ser nomeado governador, o que acabou acontecendo. E me convenceu a trazer toda a família para Porto Alegre e passar a viver e trabalhar aqui”, relata. Colatto acabou criando uma clientela formada por políticos, empresários, advogados e desembargadores. “Fiz roupa para o Jair Soares, para o Collares e, mais recentemente, para o Tarso Genro também”.

A alfaiataria é uma profissão em extinção no Brasil, mas na Europa segue em alta, em países como Itália, França e Alemanha. “O alfaiate na Europa tem um status que é superior, muitas vezes, ao de um advogado ou ao de outras profissões. É um artista.” Na verdade, acrescenta Colatto, além de um artista, muitas vezes é arquiteto, engenheiro e psicólogo, atuando também como confidente. “Sei de muita história”, admite, sorrindo. Problemas familiares, paixões, amores proibidos, mas tudo cercado de uma cláusula de confidencialidade. O alfaiate garante que levará essas histórias para o túmulo. Nas contas dele, restam três bons alfaiates em Porto Alegre – “que eu me atreveria a recomendar”, observa.

“O mundo foi ficando mais rápido”

É uma arte que está se perdendo. Para ele, uma das principais causas disso é a mudança de costumes nas últimas quatro décadas, em especial aquelas introduzidas pela massificação do uso do automóvel. “O automóvel facilitou e diminuiu o tempo de viagens e deslocamentos. Foi ficando tudo mais prático e as pessoas foram abandonando certos costumes como o do uso da gravata e do paletó, por exemplo. Veio o tênis, a calça jeans e a indústria do vestuário explodiu. O mundo foi ficando mais rápido e as pessoas passaram a não ter mais tempo para ir ao alfaiate e provar a roupa mais de uma vez até ficar pronta, ainda mais com a possibilidade de entrar numa loja e sair com a roupa rapidamente”. No auge de seu trabalho em Vacaria, tinha cinco funcionários e chegava a confeccionar de 8 a 10 trajes (calça e casaco) por semana. “Hoje”, observa bem humorado, “quando consigo fazer um por semana está bom”.

Entre o primeiro contato com o cliente, as provas e a conclusão do serviço, Colatto diz que consegue entregar uma calça e um casaco hoje em uma semana. A pessoa experimenta duas, três vezes e, em alguns casos, mesmo depois de pronto tem que dar uma mexida, pois ela se olha no espelho e faz um pedido para algum pequeno ajuste que julga necessário. Em termos de preços, ele considera que confeccionar uma roupa sob medida em um bom alfaiate não é tão mais caro do que comprá-la pronta em uma loja. E, proporcionalmente, o “sob medida” e a qualidade do tecido e do corte são vantagens diferenciais. “O cliente que conhece e valoriza a qualidade do tecido e da mão de obra, se ele pode, paga sem pestanejar. Aqueles que não conhecem, vem aqui, olham o preço e só falta me chamar de ladrão. Nunca mais aparecem”, brinca.

Para aqueles que ficam espantados com uma roupa feita em um bom alfaiate custar R$ 6 ou R$ 7 mil, ele costuma fazer uma pergunta: “Qual é o seu automóvel? Para aqueles que têm um carro de R$ 150 mil, eu digo: por que o senhor não compra um fusquinha, consegue um por R$ 10 mil”.

“As pessoas se vestem muito mal hoje em dia”

Rovídio Colatto não hesita em avaliar que as pessoas, de um modo geral, se vestem muito mal hoje em dia. “Quando eu estava aprendendo a profissão, o patrão era muito exigente no tema da boa aparência e tínhamos que trabalhar de gravata. Ao longo das últimas décadas, tudo isso foi sendo abandonado e substituído pelos trajes esporte”. Outro fator importante, segundo ele, é a falta de conhecimento sobre tecidos, padrões de corte, qualidade da mão de obra. Neste cenário, as escolas de alfaiataria foram desaparecendo. “Ninguém mais está disposto a ficar cinco anos estudando e se preparando para ser um alfaiate. Já vieram vários rapazes aqui querendo aprender a profissão. Quando eu digo que eles precisam ficar o dia inteiro aqui e o aprendizado leva cinco anos, eles desaparecem”, conta. “Tem que ser assim, com um cursinho técnico de um ano ou dois não se aprende nada”.

Um dos poucos lugares do Brasil que tem grande demanda por alfaiates, diz ainda Colatto, é São Paulo e a associação dos alfaiates de lá estava com um problema de mão de obra. “Eles acabaram montando uma escola de aprendizado. Lá em São Paulo estão formando mão de obra no sistema antigo, mais artesanal. Há cerca de vinte anos um colega, já falecido, tentou montar uma escola desse tipo aqui, mas desistiu pela falta de interesse”.

Perguntado sobre os segredos da profissão e as qualidades principais de um alfaiate, Colatto diz que, antes de tudo, é preciso gostar do que se faz. “Tem que gostar e tem que ter paciência, pois é uma profissão que exige muita paciência. Como o aprendizado é longo, se a pessoa não gosta daquilo que está fazendo, vai desistir logo”. Aos 88 anos, já aposentado, ele faz planos de parar. “Estou pensando em parar quando completar 90, se estiver aqui ainda”, fala rindo. “Vai chegando um ponto em que você perdendo uma série de fatores, entre eles o tato e a visão. É igual a jogador de futebol, quando não está jogando mais é hora de pendurar a chuteira. Aí ficarão só dois alfaiates em Porto Alegre. Se quiserem se vestir bem terão que ir para São Paulo, Buenos Aires ou para a Europa”. (Sul21 – 02/08/2015)

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