Vinde a mim as criancinhas (*)

Inspirado no texto de Jonathan Swift, "Modesta Proposta para Evitar que as Crianças da Irlanda Sejam um Fardo para os Pais ou para o seu País".

Inspirado no texto de Jonathan Swift, “Modesta Proposta para Evitar que as Crianças da Irlanda Sejam um Fardo para os Pais ou para o seu País”.

Ayrton Centeno

O Brasil acaba de conhecer mais um dos heróis anônimos que pensam e constroem a grandeza da pátria. É o delegado e deputado Laerte Bessa, do PR. Relator da emenda à Constituição que reduz a maioridade penal, ele milita nas hostes do não menos patriota Eduardo Cunha. Entrevistado por The Guardian, observou que rebaixar a maioridade penal dos 18 para os 16 é uma pechincha. Logo, previu, será abreviada para 14 e depois 12 anos. Mas sua grande sacada é o que virá depois. “Um dia, nós vamos chegar ao estágio em que poderemos determinar se a criança, ainda no útero, tem tendências à criminalidade. Se sim, a mãe não terá permissão para dar a luz”, antecipou ao jornal inglês.

Como Bessa desfila nas falanges anti-aborto, alguém poderá avistar nisso algum contraditório. Mas é inegável que se trata de homem de boa vontade, temente a Deus e imbuído das melhores intenções. E, no futuro governo Cunha, pule de dez para o Ministério da Justiça.
Mas ele comete um equívoco. Impõe-se, então, como dever inarredável de cada brasileiro, socorrer o laborioso Bessa no aperfeiçoamento de seu projeto. O que proporcionará formidável incremento a nossa economia tão pervertida pelos continuados mandatos petralhas.

A pergunta crucial é: Por que impedir o nascimento dos bebês bandidos? Eles devem, sim, vir à luz e, em vez de estatísticas policiais, tornarem-se novos dínamos da atividade econômica.
É óbvio que uma criança nascida nestes grupos de baixa empregabilidade e renda deprimida pode ser sustentada pelo leite materno durante certo tempo com receita ínfima. Que a mãe carreia mesmo na condição de pedinte. Contudo, após esse período, agrava-se a situação. É na altura do primeiro aniversário que se recomenda um olhar mais cuidadoso para o pimpolho. Que não deve representar um fardo para a sociedade, impondo-lhe pesados encargos de educação, saúde, moradia, vestuário e alimentação para o resto da vida. Tampouco deve, no futuro, onerar as finanças públicas, superlotando o sistema de reeducação e, após, as prisões. Ao contrário, deve e pode significar a redenção familiar, revigorando o ambiente de negócios. E que nicho seria este que a audácia da Livre Iniciativa saberia explorar?

Dados oficiais indicam a existência de 615 mil presos – que sugam cerca de R$ 24 bilhões/ano do erário – espalhados pelo território nacional. É o patamar mínimo do qual parte a proposta. Seguindo-se a ciência do visionário parlamentar, o legado genético dos encarcerados produziria uma descendência que se enquadraria na exata descrição do problema. Que, aqui, deixaria de sê-lo para ser solução. E o que é passivo se converteria em ativo.

Presumindo-se que os presidiários e suas mulheres — doravante denominados Unidades Produtoras Economicamente Ativas (UPEAs) — procriem uma vez por ano teríamos uma safra de 600 mil indivíduos/ano. Que seriam disponibilizados para o consumo. Para atender à demanda, as UPEAs iriam alimentá-la, por baixo, com 500 mil carcaças/ano. A princípio, 90% da produção demandaria o exterior. Em virtude do elevado preço da commodity, ela seria direcionada a uma clientela de hábitos alimentares sofisticados e de poder aquisitivo superior que frequenta as steakhouses do Primeiro Mundo. Com maior valor agregado, o carro-chefe da investida no mercado global seria o baby beef. Ao passo que o babyburger ingressaria no mercado jovem consolidado das redes de fast food.

Outros segmentos problemáticos – sem terra, sem teto, desempregados, favelados, prostitutas, mendigos, dependentes de drogas — seriam incentivados a aderir à proposta amparados por um programa revolucionário, o Promatar. Concebido como fundo para a ampliação e melhoramento do abate, o Promatar também financiaria a construção e adaptação de matadouros e atuaria na atração de empresas estrangeiras, ofertando-lhes mão-de-obra treinada, matéria-prima abundante, infraestrutura e isenção de impostos.

Através das gerências de PH (Pecuária Humana), as indústrias desenvolveriam técnicas de confinamento, permitindo uma correlação mais favorável na equação idade/peso e o abate precoce. No âmbito da humanização das condições de trabalho, durante a prenhez e a parição as fêmeas receberiam cuidados médicos, inclusive dieta balanceada, com efeitos benéficos sobre a maciez da carne do rebento. Rigoroso controle de sanidade garantiria selo de qualidade internacionalmente reconhecido e haveria pleno emprego para reprodutores e matrizes. Além da operação reprodutiva e de pastoreio, os casais se ocupariam das atividades de dessossamento, separação de cortes nobres, fabricação de bacon, enlatados, embutidos etc. Oferecendo maior harmonia ao ambiente, tornando-o familiar e descontraído, resultando em maior satisfação no cumprimento das tarefas, na elevação da produtividade e, certamente, no alcance dos objetivos propostos.

Situadas na base da pirâmide, tais famílias, em pouco tempo, ascenderiam socialmente. De nenhum salário, passariam a ter dois; em vez de dissiparem seus recursos com o sustento inútil da prole, gastariam a dupla renda apenas com o casal; deixariam de frequentar as ruas para furtar ou de gestar delinquentes, deprimindo os tão elevados índices de criminalidade; vestindo-se e comendo melhor, inclusive no refeitório do frigorífico, melhorariam de aparência, dando uma visão mais agradável do país aos turistas que nos visitam.

Aquelas UPEAs que melhor perceberem as vantagens da Livre Iniciativa logo escalarão outros patamares. Detectando oportunidades, atentas à evolução de um mercado em processo acelerado de segmentação, encarnando a cultura empresarial e transformando sua poupança em investimento em seguida se estabelecerão com negócio próprio. Dando partida a um novo e próspero ciclo de crescimento sob a égide da saudável concorrência. Nada de novo sob o Sol. Apenas o Mercado evidenciando, mais uma vez, sua condição de avalista do progresso social.

(*) Antes das cusparadas e dos pontapés, devo dizer que a modesta proposta que acabo de expor não é coisa da minha cachola. Saiu da nobre e irlandesa cachola de Jonathan Swift. Coube a mim apenas adaptar esse clássico da mordacidade escrito em 1729 às contingências da Terra Brasilis. Sob o título Modesta Proposta para Evitar que as Crianças da Irlanda Sejam um Fardo para os Pais ou para o seu País, Swift derrama vitríolo na cabeça dos hipócritas e insensíveis do seu tempo. Os camponeses da Irlanda tinham sua renda miserável sugada pela elite londrina, levando uma vida animalizada, o que aguçou a ironia do autor de As Viagens de Gulliver. Aparentemente lógica, dissimulando a insanidade do argumento central, sua prosa absurda produz efeitos devastadores, mesmo transposta para outra época. A demência de alguns lugares e períodos, onde rigorosamente tudo pode acontecer — como o Brasil do terceiro milênio, por exemplo, com seus Bessas, Cunhas, Bolsonaros e seu repertório de horrores — tornam plausível até a modesta e brutal proposta de Swift.

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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Uma resposta para Vinde a mim as criancinhas (*)

  1. Santiago disse:

    Muito bom !!!!!

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