O projeto europeu se tornou disfuncional e caminha para a desintegração, diz John Gray

“Devemos trabalhar para viver bem em sociedade, sem ficar amarrado à crença de que o mundo humano necessariamente está melhorando”, defendeu John Gray em sua conferência no Fronteiras do Pensamento. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

“Devemos trabalhar para viver bem em sociedade, sem ficar amarrado à crença de que o mundo humano necessariamente está melhorando”, defendeu John Gray em sua conferência no Fronteiras do Pensamento. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

A situação na Europa é muito perigosa. O projeto europeu se tornou disfuncional e não tem como ser reformado nos padrões atuais. Bruxelas trabalhou por uma mudança de regime em Bruxelas e falhou. Talvez o próximo passo seja forçar a Grécia a sair da zona do euro, o que traria resultados catastróficos para a Grécia, tornaria o euro ainda mais frágil e abriria as portas para a crise se agravar ainda mais em países como Portugal, Espanha e Itália. Com isso, o projeto europeu vai se desintegrar. A análise pessimista feita pelo filósofo e escritor britânico John Gray, na noite desta segunda-feira (8), no ciclo de conferências do Fronteiras do Pensamento, não deixou muitas margens de esperança para uma evolução positiva da atual crise grega e de suas repercussões no atual cenário político e econômico europeu. Gray não estava preocupado em ser otimista. Afinal, a principal ideia de sua conferência no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) é que devemos trabalhar para viver bem em sociedade, sem ficar amarrado à crença de que o mundo humano está melhorando.

A pergunta-título da conferência do autor de “Cachorros de Palha”, “Falso Amanhecer – Os equívocos do capitalismo global” e “Busca pela Imortalidade”, entre outras obras, era: “podemos viver juntos e em liberdade”. A resposta de Gray não foi necessariamente limites, mas convidou ao abandono de algumas ilusões: sim, podemos viver juntos e em relativa liberdade, mas devemos deixar de lado os sonhos universalizantes de construir uma democracia global plena de direitos e prosperidade em todo o planeta, os mitos sobre o progresso e a crença que subordina a possibilidade de vivermos bem a esses mitos e sonhos de universalidade.

“Suspeito de qualquer projeto que queira unificar o mundo”

O material de divulgação do Fronteiras do Pensamento apresenta Gray como um pensador da “Nova Direita inglesa”. No entanto, suas ideias o aproximam mais do ceticismo e do estoicismo, referências, aliás, feitas por ele em sua fala. Logo de saída, o professor emérito da Escola de Economia e Ciência Política de Londres, apresentou os conceitos básicos de sua visão de mundo, que recusou chamar de “teses”: “A verdade a respeito do mundo humano não pode ser contida num sistema único de ideias. Suspeito de qualquer projeto que queira unificar o mundo humano em torno de um só modelo de sociedade”. Gray citou como referência aí o trabalho do poeta português Fernando Pessoa. “Não chegou a ter 70 heterônimos, nem sou tão pluralista, mas resisto à ideia de buscar uma identidade uniforme”.

Podemos, sim, viver juntos, disse Gray, mas seria melhor nos acostumarmos com a ideia de que faremos isso em meio a diferentes culturas, regimes e modos de governos. “Assim como ocorreu no passado e como é hoje, no futuro provavelmente teremos diferentes regimes convivendo: democracias liberais e não liberais, monarquias, tiranias e anarquias. Qualquer ideia de um sistema único, seja ele comunista ou neoliberal, é uma ilusão. Nenhum deles se realizou, mas eles são constantemente renovados e fracassam constantemente também”, assinalou o pensador britânico.

John Gray é um crítico tanto das utopias socialistas e comunistas quanto das utopias neoliberais do fim da história e da vitória final das democracias liberais no mundo. Ele foi um crítico da guerra no Iraque desde o início. “Já em 2002, um ano antes do ataque dos Estados Unidos, fui totalmente contra e disse que o resultado da guerra do Iraque seria a destruição do Estado iraquiano”. Foi fácil destruí-lo, disse ainda Gray, mas até hoje não foi reconstruído, abrindo as portas para um regime de anarquia e para o crescimento de grupos fundamentalistas como o Estado Islâmico. “Muitas pessoas eram a favor da guerra, acreditando que seria possível promover algum tipo de democracia e no Oriente Médio de modo geral. Ainda há pessoas que acreditam nisso e que esse tipo de mudança deve ser implementado em países como a Rússia e a Grécia para que eles mudem de regime. Os resultados catastróficos dessas ações são quase sempre os mesmos”.

Além do Iraque, John Gray citou os casos da Líbia e da Síria. “O resultado da intervenção na Líbia foi instalar uma anarquia total, um desastre completo. Aliás, não há nenhum exemplo de mudança de regime neste modelo que tenha sido bem sucedido. Está ocorrendo o mesmo na Síria agora. Essa é uma tendência recorrente no pensamento ocidental, a saber, acreditar que nossas instituições devam ser universais”. Para ele, um dos problemas na sociedade atual é que as pessoas perderam de vista a história das ideias. “A ideia de que as sociedades humanas estão se encaminhando para um fim comum já existe há pelo menos 200 anos, com diferentes inflexões, em autores como Herbert Spencer, Karl Marx e Auguste Comte. Mais recentemente, Francis Fukuyama também propôs algo nesta direção com sua tese sobre o fim da história e o triunfo da democracia liberal e do capitalismo”.

Por que esse sonho de construir algum tipo de sistema único no mundo é tão forte? – indagou Gray. Ele observou que, quando começou o colapso da União Soviética, em 1989, criticou fortemente Fukuyama que acabava de lançar seu livro sobre o fim da história. “Não estávamos vendo o fim da história ali, mas sim a história seguir seu curso de conflitos políticos, religiosos e econômicos. A história sempre atravessou períodos de guerra e paz e continua sendo assim. A história da Europa é a história de um conflito contínuo e vemos isso se repetir agora”.

A desintegração do projeto europeu

Para Gray, a atual crise na zona do euro está expondo a perda de funcionalidade do projeto europeu. “Se a Grécia não aceitar as imposições de Bruxelas, isso será uma ferida mortal para a zona da moeda do euro e os próximos alvos serão Portugal, Espanha, Itália e mesmo a França. O experimento do euro se encaminhará para o seu fim. O sonho europeu não conseguirá se manter e a Europa voltará a ser o que sempre foi em sua história, uma área de conflito permanente”. Para o pensador britânico, se o euro tivesse ficado restrito a países de economia semelhante talvez pudesse durar mais tempo, mas quando integrou países com realidades muito diferentes, como é o caso da Grécia, tornou-se mais frágil e instável.

“Não vejo uma solução, a não ser uma desintegração. Mesmo que haja uma postergação no caso da Grécia, isso não será uma solução. Países como a Grécia, Espanha e Portugal convivem com níveis altíssimos de desemprego e uma ‘salvação’ do projeto do euro só poderia ocorrer ao custo de muitas vidas. Se o euro for salvo de novo, será desastroso e provocará mais desemprego, mais perda de vidas. O que isso vai gerar é um extremismo político cada vez mais perigoso”, advertiu Gray. “Já me perguntaram o que viria depois da nova direita europeia”, acrescentou. “O que vem é a velha direita, racista, xenófoba e violenta. É isso o que vai acontecer se o euro for salvo nos próximos dias. A política vai ser cada vez mais envenenada e a crise só vai piorar. A Grécia teve uma experiência particularmente terrível com o nazismo e hoje tem um partido nazista que já chegou a ter quase 20% dos votos”.

O conferencista concluiu sua fala enfatizando a ideia de que não devemos basear a busca de uma vida boa na crença de que a humanidade está melhorando. “Os progressos éticos e morais não são do mesmo tipo que os progressos científicos e tecnológicos. Estes últimos são cumulativos. O que se ganha na ciência não é perdido. Mesmo que 90% dos cientistas morressem nos próximos anos, não acredito que a ciência desapareceria. Já na ética e na política, aquilo que é conquistado pode ser perdido rapidamente. A ditadura de Saddam Hussein era terrível e cometeu muitos crimes, mas, para as mulheres iraquianas era muito melhor do que o país é hoje, pois elas participavam da política e tinham acesso a várias profissões. As comunidades cristãs que viviam no Iraque hoje estão com sua existência ameaçada pelo fundamentalismo do Estado Islâmico”, exemplificou.

“Os estóicos, os céticos e antigos pensadores judeus, muçulmanos e taoístas não eram simplórios e, de certo modo, eram muito mais honestos que os pensadores atuais que vendem mitos, ilusões e sonhos universalizantes que nunca se realizam. A política não deve ser vista como um local para a realização de projetos universais. Ela é o terreno de soluções temporárias e limitadas, não um projeto de salvação”, concluiu.

(*) Publicado originalmente no Sul21

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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