O que dizer ao Papa, atualmente presente aqui na América?

O Papa Francisco está no Equador, vai passar pela Bolívia e pelo Paraguai. (Foto: El Universo)

O Papa Francisco está no Equador, vai passar pela Bolívia e pelo Paraguai. (Foto: El Universo)

Jacques Távora Alfonsin

O Papa Francisco está visitando a América do Sul outra vez. Está no Equador, vai passar pela Bolívia e pelo Paraguai. A viagem está servindo para aumentar a polêmica em torno da sua recente encíclica Laudato Si.

Jeb Bush, um dos filhos de George W. Bush, pré-candidato à presidência dos Estados Unidos, já se pronunciara enfaticamente contra. De acordo com Florencia Costa, do site Brasil Econômico, ele acha que o Papa “deveria se ater à salvação das almas e ignorar as injustiças do mundo real”.

Trata-se de uma opinião bastante desatualizada de uma pessoa muito mal informada e ignorante, sobre um mínimo de conhecimento da doutrina da Igreja e dos novos paradigmas de interpretação teológica da bíblia. Desde o último concílio Ecumênico, ainda em meados do século passado, bastaria a leitura da Gaudium et Spes, para esse Bush se dar conta da sua gafe. O conteúdo claramente político de presença da mensagem evangélica entre o povo, aí encarnado, especialmente o mais pobre, defendido por Jesus Cristo, sabidamente assassinado por motivos também políticos, tem sido historicamente impugnado por evidente conveniência ideológica de lideranças como a do Jeb Bush.

Essas têm consciência (e temor) de que toda ligação da Palavra de Jesus, condenando as profundas injustiças e desigualdades criadas pelos Bushs da sua época, só pode ser calada com a morte de quem a repete, como aconteceu com Ele e suas/seus seguidoras/es, dando prova disso o número de padres e agentes de pastoral mortos na América Latina por essa razão. Dom Oscar Romero, canonizado, reconhecido como santo pelo Papa Francisco, é um dos exemplos mais recentes. Assassinado pela ditadura de El Salvador, defendia o povo pobre na mesma época em que, aqui no Brasil, Dom Paulo Evaristo Arns e Dom Helder Câmara, entre outros, faziam o mesmo contra o regime militar imposto ao país.

Eugenio Raúl Zaffaroni, um juiz da Suprema Corte da Argentina, recentemente aposentado, comentou nesses dias a encíclica Laudato Si sob o sugestivo título de “No va más”, expressão rica de um significado como o de “não vai mais além”, “não pode acontecer de novo”. A Dra. Antônia Mara Loguercio fez a gentileza de nos enviar o texto, como foi publicado na internet. Em tradução livre para o português afirma o conhecido jurista, sobre o que disse o Papa:

“Disse claramente que não pode haver mais um mundo onde menos de uma quarta parte engorda e se lhe entopem as artérias, dissipa o que às três outras partes faz falta para sobreviver. Não pode haver mais a técnica e a política a serviço de corporações que buscam uma renda infinita como único objetivo, inclusive produzindo suas próprias crises, exigindo dinheiro para salvar seus bancos, em somas que seriam suficientes para salvar a vida de milhões de pessoas, que exploram ou consideram ‘descartáveis’ nos países débeis e em suas próprias classes excluídas, que buscam renda a expensas de fome e morte, de destruição da biodiversidade, de contaminação, de extinção de espécies, de maltrato de humanos e animais, de desertificação, de aquecimento atmosférico, de erradicação de cultivos tradicionais, de apropriação de sementes, de crescentes intervenções biotecnológicas irresponsáveis e de um largo etecetera”.

Prossegue na América Latina, portanto, uma realidade ambiental, cultural e socioeconômica injusta, inaceitável por isso mesmo. A aceitação das denúncias do Papa na Laudato Si precisam enfrentar o esforço de todos os Bushs vivendo aqui. Quase seis séculos passaram desde que Bartolomeu de las Casas se insurgiu e condenou a conduta, tanto da igreja quanto do império espanhol no tratamento que davam aos índios, é vergonhosa a semelhança entre a palavra dele e a do Papa, em pleno século XXI.

As causas, os agentes responsáveis pela nossa realidade, o tipo da exploração colonialista estendida do velho para o novo continente, à época de Bartolomeu, ainda deitam raízes na pátria grande latino-americana, conforme vem se consagrando a expressiva fórmula de identificação da América do Sul com o seu povo. É de Dom Pedro Casaldaliga, com José Maria Vigil, a apresentação da Agenda Latino-americana de 2015, sob os Direitos Humanos: “Uma realização plena dos Direitos Humanos – de todos eles – equivaleria a uma verdadeira revolução integral: democrática, socialista, feminista, popular, ecológica… Seria a ‘topia’ da utopia: a realização de todos os nossos desejos. Por isso, uma renovada tomada de consciência social desses direitos e a sua implementação na correspondente construção jurídico-social, é algo revolucionariamente mais efetivo que muitos esforços de militância sociopolítica de outros campos. Os Direitos Humanos são, revolucionariamente falando, talvez o melhor atalho que temos hoje à nossa disposição…”.

Em seguida, como sabiam antes da visita do Papa, parece terem cumprimentado Francisco com a seguinte proclamação: “É nossa hora, hora de mudar o mundo, hora revolucionária de exigir e de cumprir todos os Direitos Humanos para todos e todas! Também Jesus o faria na sua Nazaré, atualmente mundializada”.

Essa nova visita de Francisco à América Latina, por pronunciamentos como este do Zaffaroni, Casaldaliga e Vigil, certamente vai incomodar bastante todo aquele estamento do poder econômico aqui dominante e secularmente incrustado no continente, avesso a uma mudança econômica, política e jurídica nos níveis daqueles acima propostos.

Um sinal desse fato já pode ser visto pela diferença de cobertura midiática havida quando por aqui pisou João Paulo II e Bento XVI, usando mensagens bem menos agressivas contra as causas de opressão do povo índio, negro e pobre dessa parte do mundo, se for comparada com a visita de agora do Papa Francisco.

Seja ele bem vindo, pois, bem como o potencial libertador da sua palavra. Se ele não for ouvido, ou for até contestado por aqueles estamentos, certamente será acolhido, com entusiasmo, por toda aquela parte de gente sofrida do nosso continente, ávida de um apoio e de um estímulo forte como esse, para enfrentar e superar as causas da injustiça social que impedem a construção, aqui, da “terra sem males”, sonhada e querida por todo o povo nativo da América, como nosso conhecido Sepé Tiaraju sonhava e queria.

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