“Poderemos deixar às próximas gerações demasiadas ruínas, desertos e lixo”

Papa Francisco: “A pobreza e a austeridade de São Francisco não eram simplesmente um ascetismo exterior, mas algo de mais radical: uma renúncia a fazer da realidade um mero objeto de uso e domínio”. (Divulgação)

Papa Francisco: “A pobreza e a austeridade de São Francisco não eram simplesmente um ascetismo exterior, mas algo de mais radical: uma renúncia a fazer da realidade um mero objeto de uso e domínio”. (Divulgação)

O uso irresponsável e abusivo da natureza, alimentado pelas ideias de dominação e propriedade, desencadeou um processo de deterioração global do ambiente que pode nos levar a uma catástrofe ecológica e civilizatória. Essa advertência é o fio condutor da Encíclica “Laudato Si” (Louvado Seja – Sobre o cuidado da casa comum), do Papa Francisco, divulgada dia 18 de junho pelo Vaticano. O documento, já distribuído aos bispos do mundo inteiro, fala da necessidade de “eliminar as causas estruturais das disfunções da economia mundial e corrigir os modelos de crescimento que parecem incapazes de garantir o respeito ao meio ambiente”. Pela primeira vez na história, a autoridade máxima da Igreja Católica dedica uma encíclica inteira para tratar de problemas ecológicos como a mudança climática, a deterioração do solo, da água, do ar e da civilização humana como um todo.

A “Laudato Si” vem causando desconforto e críticas entre setores conservadores dentro da Igreja Católica e fora dela. Jeb Bush, candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, criticou o teor da encíclica e disse que não pretende deixar o papa ditar as estratégias econômicas e que a religião não deve se ocupar da esfera política. Ainda nos Estados Unidos, o comentarista de rádio conservador Rush Limbaugh classificou Jorge Bergoglio como um “papa marxista”, por causa de suas críticas ao capitalismo. Nick Butler, colunista do Financial Times, acusa o papa de fazer “um ataque à ciência e a tecnologia” e critica a ideia de abandonar o “paradigma técnico-econômico”. N verdade, a encíclica não faz nenhuma coisa nem outra. O que o texto defende é que “os progressos científicos mais extraordinários, as invenções técnicas mais assombrosas, o desenvolvimento econômico mais prodigioso, se não estiverem unidos a um progresso social e moral, voltam-se necessariamente contra o homem”.

A “Laudato Si” vem causando desconforto e críticas entre setores conservadores dentro da Igreja Católica e fora dela.

A “Laudato Si” vem causando desconforto e críticas entre setores conservadores dentro da Igreja Católica e fora dela.

A encíclica papal tampouco se resume à uma crítica ao atual modelo de consumo e produção. Além dos problemas de natureza econômica e política, ela identifica uma crise de percepção que faz com que o ser humano não se sinta parte da natureza. “Esquecemo-nos de que nós mesmos somos terra. O nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta; o seu ar permite-nos respirar, e a sua água vivifica-nos e restaura-nos”, diz o documento. Essa percepção deformada de não se sentir parte da natureza anda de mãos dadas com as ideias de dominação e propriedade.

O pensamento radical de São Francisco de Assis

Inspirador do nome de batismo papal do argentino Jorge Bergoglio, São Francisco de Assis é uma presença constante em toda a encíclica. “Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenho na sociedade e a paz interior”. O Papa extrai uma ética do cuidado da experiência de vida de São Francisco de Assis: “Ele sentia-se chamado a cuidar de tudo o que existe. Essa convicção não poder ser desvalorizada como romantismo irracional, pois influi nas opções que determinam o nosso comportamento. Se nos sentimos intimamente unidos a tudo o que existe, então brotarão de modo espontâneo a sobriedade e a solicitude. A pobreza e a austeridade de São Francisco não eram simplesmente um ascetismo exterior, mas algo de mais radical: uma renúncia a fazer da realidade um mero objeto de uso e domínio. Para ele, o mundo é algo mais do que um problema a resolver”.

Para maior irritação dos que o consideram um “papa marxista”, Francisco enfatiza a conexão entre a luta contra a destruição da natureza e a contra a pobreza e a fome. Ele apresenta do seguinte modo os eixos temáticos que atravessam as 190 páginas da encíclica: relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta, a convicção de que tudo está estreitamente interligado no mundo, a crítica do novo paradigma e das formas de poder que derivam da tecnologia, o convite a procurar outras maneiras de entender a economia e o progresso, o valor próprio de cada criatura, o sentido humano da ecologia, a grave responsabilidade da política internacional e local, a cultura do descarte e a proposta de um novo estilo de vida.

Uma cultura de resíduos, poluição e desperdício

O Papa Francisco reconhece que as reflexões e alertas sobre a situação da humanidade e do mundo podem soar como uma mensagem repetida e vazia se não forem apresentadas a partir de um confronto com o presente, naquilo que este tem de inédito na história da humanidade. Esse confronto, defende, seria necessário para tomarmos “dolorosa consciência e ousar transformar em sofrimento pessoal aquilo que acontece ao mundo”. Ao falar sobre o que está acontecendo com o mundo e conosco, o documento denuncia uma cultura de poluição, resíduos e desperdício: “A exposição aos poluentes atmosféricos produz uma vasta gama de efeitos sobre a saúde, particularmente dos mais pobres, e provoca milhões de mortes prematuras. (…) A isso vem juntar-se a poluição causada por substâncias que contribuem para a acidificação do solo e da água, pelos fertilizantes, inseticidas, fungicidas, pesticidas e agrotóxicos em geral”.

A encíclica também alerta para “as centenas de milhões de toneladas de resíduos, muitos deles não biodegradáveis: resíduos domésticos e comerciais, detritos de demolições, resíduos clínicos, eletrônicos e industriais, resíduos altamente tóxicos e radioativos. A terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo”. Esse problema, acrescenta, está intimamente ligado à cultura do descarte, “que afeta tanto os seres humanos excluídos como as coisas que se convertem rapidamente em lixo”. Neste mesmo contexto, o documento critica a atuação dos meios de comunicação de massa que “não favorecem o desenvolvimento de uma capacidade de viver com sabedoria, pensar em profundidade, amar com generosidade. Os grandes sábios do passado correriam o risco de ver sufocada a sua sabedoria no meio do ruído dispersivo da informação.”

O Papa também menciona o fato de muitos profissionais, formadores de opinião, meios de comunicação e centros de poder estarem localizados longe dos mais pobres, vivendo em áreas urbanas isoladas, sem ter contato direto com os seus problemas. “Vivem e refletem a partir da comodidade de um desenvolvimento e de uma qualidade de vida que não está ao alcance da maioria da população mundial”.

As mudanças climáticas e a dívida ecológica dos países ricos

Definindo o clima como um bem comum, o documento chama a atenção também para as mudanças climáticas. Para Francisco, “as mudanças climáticas são um problema global com graves implicações ambientais, sociais, econômicas, distributivas e políticas, constituindo atualmente um dos principais desafios para a humanidade”. Os impactos  mais sérios desses eventos, sustenta ainda, deverão recair nas próximas décadas sobre os países em via de desenvolvimento, afetando principalmente as populações mais pobres. Neste ponto, o Papa identifica uma dívida ecológica a ser paga pelos países mais ricos para os mais pobres:

“Os países em desenvolvimento estão à mercê das nações industrializadas, que exploram seus recursos para alimentar sua produção e consumo, numa relação estruturalmente perversa. É preciso eliminar as causas estruturais das disfunções da economia mundial e corrigir os modelos de crescimento que parecem incapazes de garantir o respeito do meio ambiente”.

Essa deterioração ambiental, insiste Jorge Bergoglio, afeta principalmente os mais frágeis do planeta; “Os efeitos mais graves de todas as agressões ambientais recaem sobre as pessoas mais pobres. (…) O impacto dos desequilíbrios atuais manifesta-se na morte prematura de muitos pobres, nos conflitos gerados pela falta de recursos e em outros problemas que não têm espaço suficiente nas agendas mundiais”. A nova encíclica do Papa Francisco tem a pretensão de influenciar essa agenda e ajudar a diminuir “os desertos exteriores e interiores que se multiplicam pelo mundo”.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

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