Pressionada pelo avanço conservador, esquerda discute novos caminhos

“Para defender a Dilma tem que tirar o Joaquim Levy. Esse é o ponto. Não tem jeito”, defendeu Raul Pont no encontro do Fórum21, realizado em Porto Alegre.  (Foto: Divulgação)

“Para defender a Dilma tem que tirar o Joaquim Levy. Esse é o ponto. Não tem jeito”, defendeu Raul Pont no encontro do Fórum21, realizado em Porto Alegre. (Foto: Divulgação)

Nos últimos meses, diversos grupos de esquerda vêm se reunindo pelo Brasil para discutir o atual cenário político nacional, em especial a guinada na política econômica do governo Dilma Rousseff e a ofensiva conservadora em curso no país dentro e fora dos parlamentos. Participam destas reuniões integrantes de partidos, sindicatos, movimentos sociais, intelectuais das mais diversas áreas e ativistas que não são ligados a nenhuma organização política em especial. Há uma grande diversidade de temas, métodos e interesses se mesclando, mas há alguns pontos em comum que vêm alimentando essas articulações. Um dos principais é o avanço da agenda conservadora no terreno dos direitos civis e sociais, que se traduz em pautas como a redução da maioridade penal, a ampliação da terceirização ou a revogação do Estatuto do Desarmamento.

Nesta segunda-feira (29), ocorreu mais um destes debates, desta vez em Porto Alegre. Criado em dezembro de 2014, em São Paulo, o Fórum21 realizou sua primeira reunião na capital gaúcha, numa sala do Instituto Federal do Rio Grande do Sul. Segundo Joaquim Ernesto Palhares, diretor da Carta Maior e integrante do grupo executivo do Fórum21, “desde o final do ano passado, quando a presidenta Dilma Rousseff deu um cavalo de pau e mudou os rumos da política econômica, já foram realizadas 15 reuniões desse tipo em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília”. O Fórum21 se define como “um espaço de convergência e de debates em rede, horizontal, empenhado na conformação de sínteses programáticas que contribuam para a renovação do pensamento de esquerda no Brasil”.

“Há um golpe sendo gestado em várias frentes”

Embora tenha nascido em São Paulo, a iniciativa pretende ter caráter nacional, com uma preocupação especial com a comunicação e o debate de ideias. Até o final de agosto, informou Joaquim Palhares, o grupo pretende ter núcleos articulados em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador e Recife. “Nas reuniões que promovemos até aqui, fizemos toda a terapia que tínhamos para fazer. Já culpamos o PT, o governo e a nós mesmo pelo aquilo que deveria ter sido feito e não foi. O tempo ficou muito curto e a conjuntura exige hoje que tenhamos uma agenda propositiva que olhe para frente e apresente alternativas para o Brasil que queremos. Há um golpe sendo gestado em várias frentes, criando uma situação perigosa onde tudo pode acontecer”, assinalou o diretor da Carta Maior.

A busca por convergência de agendas e caminhos convive com divergências de caracterização sobre a atual conjuntura. Para o economista Carlos Paiva, da Fundação de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul, não é o caso de se falar em surpresa quando se discute o significado da inflexão da política econômica do governo Dilma. “A política econômica estava mal das pernas em 2014. Chegamos ao final do ano com aumento do déficit no setor público e na balança comercial, as isenções fiscais que consumiram muitos recursos públicos não resultaram em crescimento e tivemos um crescimento da inflação no limite da meta. Aquela gestão macroeconômica era insustentável, o que significa defender a receita proposta por Joaquim Levy. De certo modo, houve uma repetição do que Lula fez no seu primeiro mandato. Então, não foi assim tão surpreendente o que Dilma fez”, defendeu Paiva.

“Falar em frente de esquerda hoje é suicídio”

A urgência temporal imposta pela ofensiva da agenda conservadora encurta as margens desse debate. O cientista político Benedito Tadeu César defendeu que o momento atual não é propício para discutir detalhes sobre a caracterização da conjuntura. “Precisamos estabelecer uma pauta mínima comum. Escuto muita gente falando em frente de esquerda. Defender frente de esquerda, na atual conjuntura, para mim é suicídio. Com a maioria que os conservadores têm hoje no Congresso, eles aprovam qualquer coisa, inclusive o parlamentarismo, como já vem cogitando Eduardo Cunha. Só vamos nos articular se encontrarmos um ponto de convergência. O primeiro deles é a democracia, mas não basta falar em democracia, pois a direita também usa essa palavra com desenvolveu”, afirmou.

Na avaliação do ex-secretário da Fazenda do Rio Grande do Sul, Odir Tonollier, a grande questão no momento é definir qual o ponto de convergência para essas articulações políticas e sociais. Para ele, esse ponto é a defesa da democracia e do governo Dilma. No entanto, ressaltou, qualquer movimento em defesa do governo Dilma não poderá ocorrer em um ambiente de desemprego e recessão. Na mesma direção, Raul Pont, integrante da direção nacional do PT, defendeu a mudança da atual política econômica. “O governo cumpriu o que a grande mídia e os banqueiros queriam e implementou o ajuste fiscal. Agora, essa mesma mídia culpa o governo pelo desemprego causado pela receita que ela defendia. Se havia um desequilíbrio orçamentário, o governo poderia corrigir isso com medidas orçamentárias. Isso não implica colocar o juro nas alturas. Para defender a Dilma tem que tirar o Levy. Esse é o ponto. Não tem jeito”, defendeu Pont.

“O que eles querem é o impeachment da Dilma e a prisão do Lula”

A deputada estadual Stela Farias (PT) destacou, por sua vez, que o processo de criminalização da política, atualmente em curso, tem muito a ver com as escolhas e os acertos políticos dos governos Lula e Dilma. “Não tenho dúvida sobre uma coisa. O que eles querem é o impeachment da Dilma e a prisão do Lula. Neste momento há uma profunda confusão na nossa base social e um trabalho diário e sistemático contra o PT e o governo Dilma. Além disso, vemos um recrudescimento do conservadorismo em todo o país. Aqui no Rio Grande do Sul, por exemplo, temos pela primeira vez na história uma bancada evangélica fundamentalista com 12 deputados. Eles se articularam em todo o Estado e, na semana passada, nos impuseram uma derrota na questão da ideologia de gênero”.

Para o advogado Paulo Torelly, a direita sempre foi golpista e segue sendo. “Houve uma tentativa de impeachment no início do ano, que apostava em grandes mobilizações de rua, que acabou sendo barrada. Eles seguem tentando por outros meios. Por outro lado, as demandas por direitos sociais seguem muito fortes, como mostra a mobilização contra o projeto das terceirizações e devemos mostrar que os setores golpistas são os mesmos que defendem esse tipo de proposta”. Por outro lado, o fim de políticas promotoras de coesão social como os Pontos de Cultura, Mulheres da Paz e Territórios da Paz, no primeiro governo Dilma, foi apontado pelo vereador Alberto Kopittke (PT) como um dos fatores de agravamento da crise e de corrosão junto à base social do governo.

Em quase todas as intervenções do debate promovido pelo Fórum21 havia um sentimento de final de um ciclo e de necessidade urgente de pensar o futuro próximo. “Estamos vivendo o fim de um ciclo. Nos beneficiamos de uma conjuntura que acabou e agora somos obrigados a pensar os próximos passos em um ambiente onde a velocidade da conjuntura é impressionante”, resumiu Carlos Roberto Winckler, da Fundação de Economia e Estatística.

(*) Publicado originalmente no Sul21.

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Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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