O TOM que me irrita (ou: o que me irrita é o TOM da mídia)

gritar

Caco Schmitt (*)

O que me irrita é o TOM. Da grande mídia. Pra quem já viveu por dentro das redações de rádios, jornais e televisões desde os tempos em que uma geração sonhadora de “porras-loucas” começou a trabalhar na imprensa, com um TOM pretensamente revolucionário, de querer fazer jornalismo verdade, sem manipulação, com um TOM social, utópico, um TOM a favor da justiça, por uma sociedade igualitária, sem preconceitos de qualquer natureza; o TOM de hoje é o que mais me incomoda. O TOM de voz, o TOM inquisidor, o TOM falsamente benevolente com os “bons”, o TOM debochado com os “maus”, o TOM acima e o TOM abaixo do TOM. O TOM que revela a alma, disfarça o que não se permite dizer abertamente: ideias reacionárias e fascistas…

Adoro TOM. O TOM rouco e grave do Tom Waits; o TOM genial revirador do Tom Zé; o divertido do Tom Cavalcante; e o mordaz Tom & Jerry. E gosto muito do Tom, nosso querido Fogacinha (ehehhh)… Mas o TOM atual da mídia é o que mais me irrita… O TOM, o TOM de voz, a entonação da pergunta, o TOM do comentário que se imagina brilhantemente irônico, sempre contra um lado. O TOM contra os inimigos de classe dos patrões, que libera aquele TOM jocoso, debochado que se desfaz quando em cena surge o outro lado: os banqueiros, os empresários, os grandes comerciantes e produtores rurais, os agentes financeiros, economistas de direita, enfim, o Bloco do Poder.. Aí o TOM é: “normal”… queridinho!

O que me irrita é a aceitação desta linha que os jornalistas absorvem sem questionar o porquê desta orientação. Vivemos hoje o TOM orientado. Os jornalistas (se é que são) perderam próprio TOM. O TOM do seu tempo, o TOM do que está em jogo, o TOM da profissão, o TOM da ética, se é que o jornalismo atual tem ética. TOM tem. Se jornalismo tiver TOM, me contentaria com o TOM do caráter…

Não vou falar do TOM da seletividade da escolha das pautas e da linha das reportagens direcionadas porque isto todos já sabemos qual é o TOM… O que me irrita é o TOM teleguiado pelos comandos patronais que os “jornalistas” obedecem cegamente. E não é de hoje. É uma construção permanente, insistente e formadora de tudo que estamos vendo nas redes sociais… O que me irrita é o TOM serviçal de um apresentador, por exemplo, do Canal Livre (da Band) que paparica e quase bajula o entrevistado banqueiro ou de um partido apoiado pela “Casa”; e, quando entrevista um personagem de esquerda (não precisa ser do PT, pode ser um pensador marxista ou do MST), o interroga como se fosse um delegado do DOPS na ditadura militar frente a um “subversivo” de esquerda. O TOM de porão e de cadeira do dragão me dá nojo…

Irrita mais ainda o TOM dos novos repórteres, uma geração formada nas escolinhas das empresas de comunicação, como bem já falaram o vibrante Wladymir Ungaretti e o corajoso José Luiz Prévidi (pra nós: o Cabeça). Eles já falaram: estes repórteres já vêm com o TOM de fábrica: quando falam com alguém do lado patronal, o TOM é: “veja bem..” Se for do lado de lá, surge como uma força policialesca o TOM debochado e/ou agressivo: “que cara pau, não é verdade…”. TOM de 1964… Ditatorial.

Mas o TOM dos redatores é ainda pior. Redator, o editor de texto, normalmente são os caras mais, digamos, competentes, experientes e por aí a fora. Se hoje não seguirem a cartilha, são demitidos e ficam com problemas de recolocação no mercado. Entonces, siga o TOM: lasca o pau e ironiza quando o “suspeito” for de esquerda”; e manera quando o possível ou “suposto” indiciado é do “nosso” lado…

Não vou falar do TOM que já irrita até mesmo os do lado de lá: quando um prefeito, vereador, governador etc. são acusados ou suspeitos de algum ilícito (ou mau-feito, palavra da moda), se for do PT, o texto abre assim: “Caco Schmitt, prefeito DO PT, é acusado …”.; se o prefeito acusado for do lado de lá, o texto abre assim (quando abre…) “o prefeito de Cidadópolis supostamente acusado…”. Sem dizer o partido…

Contrariado, aqui abro uns parênteses, mas devo falar do TOM pegajoso do Arnaldo Jabor & CIA, que amplia o absurdo possível da Rede Globo. Personagem nefasto, acha que seu TOM jocoso é brilhante, claro, porque o jocoso é só para tratar como figuras ridículas presidentes eleitos democraticamente de países como Argentina, Venezuela, Bolívia. Usa o TOM mais rasteiro e cloacal (seu habitat natural) porque eles são a bola da vez da CIA, dos falcões norte-americanos, aí está liberado: pode chutar cachorro morto. Covarde! Agora, para falar mal de governos ditatoriais apoiados pelo Tio Sam e os patrões, não há TOM que defina a omissão e a covardia que explique o malabarismo para explicar o inexplicável… Escroto como Miriam Leitão, Willian Waack, Cristiane Pelajo, e o comentarista de economia, o Sardenberg, figuras nefastas que têm na cartola todos os TONS mágicos para confundir, agredir, mas que não conseguem disfarçar o TOM racista quando o tema da matéria é sobre negro, ou sem terra, indígenas etc.. é o TOM deste jornal de merda. Para este Jornal da Globo, o TOM é: “se o Brasil tem pleno emprego é porque as pessoas não procuram emprego”; “se nós crescemos mais que outros países, não é bem assim….”. Etc…..

O TOM que me irrita está presente em qualquer entrevista em qualquer programa nos canais das grandes famílias proprietárias da Comunicação no Brasil. Nem vou falar do TOM asqueroso do Willian Bonner naquela famosa entrevista com a então candidata Dilma Rousseff, na qual ele ultrapassou o TOM da civilidade. Quando entrevistador seja da Rádio Gaúcha de Porto Alegre ou da CBN, entrevista alguém do PT ou dos movimentos sociais, todos “jornalistas”, todos mesmos, se transformam em inquisidores, mal-educados, que não acreditam em nada do que o entrevistado contrapõe e tentam sempre arrancar uma confissão para agradar os patrões. O TOM é sempre irônico, debochado e questionador. Já, quando o entrevistado é do rol dos amigos do patrão, o TOM é diferente: são dóceis, carinhosos e, ao perguntar, chegam a criticar quem criticou o entrevistado, ou ainda: quando necessitam fazer uma pergunta difícil, quase pedem desculpas de joelhos por se permitir ousar perguntar…Que TOM submisso e ordinário, pra não dizer: vabagundo!

Não vou falar do TOM das redes sociais: agressivo, fascista, nazista pra não recorrer a outros conceitos e definições. Este TOM de tão podre assusta ate os TOMzistas de plantão da grande mídia, que agora começam a mudar um pouquinho o TOM e dizer que manifestações pela intervenção militar (GOLPE) são feitas por minorias. Mas falam com um TOM dúbio de quem gosta do que está acontecendo porque acham que o patrão gosta.

Pra encerrar, quero falar do meu TOM, afinal, como diria contrariado meu irmão querido Renato Dalto: “sou mocinho do meu filme”. Sigo desafiando os TONS que surgem em nosso caminho. Este grunhidos irritam, mas não nos metem medo. O TOM onipotente, massacrante e avassalador, arquitetado e planejado pelos querem mais uma vez se aproveitar de rupturas antidemocráticas e usam a grande mídia (pernósticos empresários que pegam migalhas) e os inocentes inúteis dos webzumbis (que destilam seus ódios, preconceituosos, racistas e seus desejos de matar charles bronsonianos contra negros, gays, índios, pobres, petistas, comunistas, umbandistas, batuqueiros e sonhadores), só me deixam com vontade de subir o TOM. Vontade de dizer pra estes filhos das putas que vamos vencer vocês…….

Quem tem esteTOM asqueroso não pode vencer. NUNCA. Por isso, vou buscar um amplificador potente pra ampliar minha voz e a voz de quem quiser vir junto, para que o TOM da liberdade e igualdade seja ouvido mais alto, mais forte para abafar este fétido TOM destes canalhas. Porque a cada dia eu me percebo com um TOM mais forte, mais corajoso, vigoroso na minha fragilidade, porque o que esta CORJA tem pra propor é a volta às trevas. A volta ao passado, a tudo aquilo que já pensávamos extinto e bem enterrado e, que agora, ressurge a serviço dos sujos e golpistas, racistas e homofóbicos, preconceituosos e elitistas, que não toleram a felicidade de quem foi oprimido e hoje está quase liberto.

Então, se a questão do momento é o TOM, vamos dar o TOM: O NOSSO TOM. Sem meias palavras: se nós que lutamos durante toda nossa adolescência e juventude (E AINDA LUTAMOS) contra a Ditadura, pela liberdade, contra a tortura de homens e de mulheres, pela democracia, por liberdades democráticas, pela liberdade sexual, pelo direito de expressão, de professar nossos cultos mesmo que sejam agressivos à elite branca, de viver em comunidades socialistas, ecológicas, orgânicas e místicas, organizadas por homens e mulheres com ou sem definições partidárias e políticas. Então, se pensamos assim: vamos subir o TOM, porque já estou de saco cheio com o TOM deles. Se “eles” estão num TOM de campanha eleitoral — há 12 anos — nós também temos que entrar no TOM de disputa eleitoral. TOM por TOM, sou mais o nosso TOM.

(*) Jornalista

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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2 respostas para O TOM que me irrita (ou: o que me irrita é o TOM da mídia)

  1. oleti gomes disse:

    Calma, Sr. Jornalista! Cuide-se para não infartar. Entendo perfeitamente a sua dor e inconformidade. É como me encontro neste momento. Por ser um grão de areia no Oceano e não ter voz nem vez para resolver o problema dos moradores de rua. Muitos, vagabundos (muitos ladrões infiltrados se passando por morador de rua – vc vê, ladrão não é só na Petrobrás) e que não querem trabalhar, mas que na mão direita tem um cigarro aceso e na outra, uma garrafa de canha. Meu TOM aumenta quando de manhã quero abrir as portas da minha humilde lojinha para a minha sobrevivência e de meus filhos, e antes tenho que lavar a urina e o cocô deixado por eles, na minha porta. E se você pede para que saiam dali vc é ameaçado. As instituições que recebem seus soldos das nossas contribuições dizem não poder fazer nada!! O Senhor acredita nisto?? Então por que existirem, gastando mensalmente, somas astronômicas, como é o caso da Brigada? Que fechem as suas portas e deixem a anarquia tomar conta, se é que já não tomou. A desordem campeia frouxa neste nosso imenso País. Ele é tão imenso que se torna impossível organizá-lo. Às vezes penso em morar no Japão, mas lá também existe o Tisunami. E aí, correr para onde? Um abraço.

  2. Rui Porto disse:

    Clap, clap, clap!

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