Ao contrário do prometido, transgênicos trouxeram aumento do uso de agrotóxicos

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Quando iniciou o debate sobre a utilização de Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) na agricultura, uma das principais promessas feitas por seus defensores era que o cultivo de transgênicos, entre outros benefícios, traria uma diminuição do uso de agrotóxicos, em função do desenvolvimento de plantas resistentes a pragas. Passadas cerca de duas décadas, o que se viu no Brasil foi exatamente o contrário. A crescente liberação do plantio de variedades transgênicas de soja, milho e outros cultivos trouxe não uma diminuição, mas um aumento da utilização de agrotóxicos. Mais grave ainda: vem provocando o surgimento de novas pragas mais resistentes aos venenos, que demandam o desenvolvimento de novos venenos, numa espiral que parece não ter fim e que vem sendo construída sem os estudos de impacto ambiental necessários.

Esse foi um dos alertas feitos no painel “10 anos da Lei de Biossegurança e os Transgênicos no Brasil”, realizado terça-feira (24) à noite, no auditório da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Promovido pela Agapan, InGá Estudos Ambientais, Movimento Gaúcho em Defesa do Meio Ambiente (MoGDeMA) e GVC – Projeto de Extensão da Biologia da UFRGS, o encontro, além de atualizar a situação da Lei de Biossegurança e da transgenia no Brasil, prestou uma homenagem à pesquisadora Magda Zanoni, recentemente falecida, que foi uma das principais pesquisadoras no campo da reforma agrária e da agricultura familiar no país, e uma crítica do uso de organismos transgênicos na agricultura como uma solução para os problemas da alimentação no mundo.

Situação da Biossegurança no país piorou, diz pesquisadora

O painel reuniu a doutora em Ciências Sociais, Marijane Lisboa, professora da PUC-SP, e o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, integrante da Agapan. Marijane Lisboa fez um balanço dos dez anos da Lei de Biossegurança, lembrando que essa é, na verdade, a segunda legislação sobre esse tema no Brasil. A primeira lei, de 1995, assinalou, era melhor que a atual pois tinha uma regra que submetia as decisões da Coordenação-Geral da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) ao parecer de órgãos ambientais e da área da saúde. “Essa cláusula permitiu, por exemplo, ingressarmos na justiça contra a liberação da primeira variedade de soja transgênica no Brasil. Isso, ao menos, atrasou a liberação dos transgênicos no país”, assinalou a pesquisadora. Mas essa lei tinha uma desvantagem em relação à atual: durante a sua vigência, as reuniões da CTNBio eram fechadas para a sociedade.

O atraso na liberação das primeiras variedades transgênicas não impediu, porém que elas começassem a ser plantadas de forma ilegal no país. O Rio Grande do Sul foi um Estado pioneiro nessa ilegalidade, com o plantio da chamada soja Maradona, contrabandeada da Argentina. Marijane Lisboa trabalhou no Ministério do Meio Ambiente, quando Marina Silva, era ministra, e vivenciou diretamente todo o lobby da indústria dos transgênicos e de seus braços parlamentares para a liberação do plantio. “A pressão política foi muito forte e a soja transgênica acabou sendo liberada, no governo Lula, por Medida Provisória. Quando o governo enviou a MP para o Congresso, a bancada ruralista anunciou que pretendia fazer uma emenda para ampliar a liberação e torná-la permanente. Seguiu-se uma negociação que acabou dando origem à nova Lei de Biossegurança”, relatou.

“Para construir uma ponte, precisa estudo de impacto ambiental. Para liberar transgênico, não”

Uma das principais disputas travadas na época se deu em torno da vinculação ou não dos pareceres da CTNBio à avaliação dos órgãos ambientais. “Nós defendíamos essa vinculação, mas, infelizmente, o então ministro Aldo Rebelo decidiu pela posição contrária. O que os cientistas decidissem na CTNBio seria a palavra final, o que deu origem à uma lei muito pior que a anterior. “Não é possível que, para construir uma ponte, seja preciso ter um estudo de impacto ambiental, e para liberar um produto transgênico para o consumo humano não exista a mesma exigência”, criticou a professora da PUC-SP. “Hoje”, acrescentou, “os integrantes da CTNBio são escolhidos diretamente pelo ministro da Ciência e Tecnologia. Nós temos cinco representantes da sociedade civil, mas eles devem ser doutores e representam uma posição minoritária. Os lobistas da indústria dos transgênicos assistem às reuniões para ver como os cientistas estão se comportando. Essa é a CTNBio hoje. Ela foi sendo adaptada para liberar tudo”.

Na mesma direção, Leonardo Melgarejo criticou o atual modo de funcionamento da CTNBio, observando que os integrantes da comissão aprovam a liberação de transgênicos com base em uma bibliografia totalmente favorável a essa posição, composta em sua maioria por artigos não publicados em revistas indexadas. Para enfrentar essa situação, um grupo de pesquisadores está preparando um livro com 700 artigos de cientistas que fazem um contraponto a esse suposto consenso favorável à liberação do plantio e consumo dos transgênicos. Esse livro incluirá artigos publicados já nos primeiros meses de 2015 que contestam esse suposto consenso. Um deles, “No scientific consensus on GMO safety”, de autoria de um grupo de cientistas da European Network of Scientists for Social and Environmental Responsibility, denuncia a fragilidade de evidências científicas para sustentar tal consenso.

“Hoje, não dá para dissociar agrotóxicos de transgênicos”

Melgarejo chamou a atenção para o fato de que não é possível, hoje, dissociar agrotóxicos de transgênicos. “Quando alguém sente cheiro de veneno já está sendo envenenado”, resumiu. Além dos problemas de contaminação, advertiu, há vários outros que não são do conhecimento da sociedade. Entre eles, está o fenômeno do aumento da resistência de certas bactérias a antibióticos e o surgimento de novas pragas, o que leva ao desenvolvimento de novos tipo de transgênicos. A França, relatou ainda o engenheiro agrônomo, proibiu ontem (23) o cultivo do milho geneticamente modificado MON 810. Melgarejo advertiu também para os riscos da aprovação no Brasil do agrotóxico 2,4 D, muito mais tóxico que o glifosato, e do projeto de lei do deputado federal Luis Carlos Heinze (PP-RS), propondo o fim da rotulagem dos transgênicos.

O biólogo Paulo Brack, do InGá Estudos Ambientais, também criticou o modo de funcionamento atual da Comissão Nacional de Biossegurança. “A situação da CTNBio passou dos limites. Não há espaço para debate científico nas reuniões, as cartas já estão marcadas. A maioria dos integrantes da CTNBio tem vínculos com empresas”. Para Brack, a agricultura convencional hoje se tornou disfuncional pois não respeita princípios ecológicos básicos. “A lógica é aumentar o consumo dos agrotóxicos”, assinalou o biólogo, que apresentou um gráfico que atesta esse crescimento.

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Em 2005, quando foi a aprovada a Lei de Biossegurança 11.105, que impulsionou a liberação de transgênicos no país, o consumo de agrotóxicos no Brasil estava na casa dos 700 milhões de litros/ano. Em 2011, seis anos apenas depois, já estava na casa dos 853 milhões de litros/ano. Em 2013, as estimativas apontam para um consumo superior a um bilhão de litros/ano, uma cota per capita de aproximadamente 5 litros por habitante. O Brasil consome hoje pelo menos 14 agrotóxicos que são proibidos em outros países do mundo.

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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7 respostas para Ao contrário do prometido, transgênicos trouxeram aumento do uso de agrotóxicos

  1. Paulo Andrade disse:

    Caros.

    Quanto ao aumento do uso de agrotóxicos, ele aconteceu, sim, mas está diretamente relacionado ao aumento da produção: nos últimos 10 anos a produção praticamente dobrou se acréscimo de área plantada e o uso de agrotóxicos também. Isso é típico do modelo de agricultura intensiva do país, desde cana de açúcar até milho, passando por côco, dendê, laranja e por aí vai.
    Mas os únicos agrotóxicos que têm relação com os transgênicos são o glifosato, o glufosinato de amônio e dois de menor expressão, que tiveram o uso aumentado. O aumento do uso de óleo mineral, 2,4-D e uma longa lista de outros pesticidas nada tem a ver com isso, sobretudo o de inseticidas, uma vez que as plantas transgênicas resistentes aos insetos efetivamente reduziram o uso de inseticidas. Enquanto isso, os casos de intoxicação não cresceram nada, pelo contrário: há uma tendência de queda.
    Os debatedores fizeram uma união entre aumento do uso det ransgênnicos (mais de 500%) e de agrotóxicos (cerca de 200%), mas esqueceram de ver o aumento da produção sem aumento de área. Erro crasso.
    Esta correlação sem sentido está refutada aqui: http://genpeace.blogspot.com.br/2015/03/agrotoxicos-tamanho-real-do-problema-e.html

    • Roberto Weber disse:

      Quanto à sua afirmação “Os debatedores fizeram uma união entre aumento do uso de transgênicos (mais de 500%) e de agrotóxicos (cerca de 200%), mas esqueceram de ver o aumento da produção sem aumento de área. Erro crasso.”, é justamente o aumento de produção sem o aumento da área cultivada que me faz ficar espantado por este aumento do uso de agrotóxicos. Em suma, o consumo de transgênicos aumentou NA MESMA ÁREA CULTIVADA! A exposição ao veneno está cada vez maior, o aumento de sua concentração nos alimentos que ingerimos não para de aumentar e, em conseqüência, adoecemos cada vez mais por envenenamento. Mas em compensação, os fabricantes de defensivos ficam cada vez mais ricos…

      • Paulo Andrade disse:

        Roberto, neste sentido, você está certo: há mais uso de agrotóxico por m2. Mas, curiosamente, não necessariamente mais exposição dos seres humanos aos agrotóxicos pelo consumo dos alimentos. Por que? Porque o aumento de produção se deu pela adoção de duas ou até três safras anuais, pelo adensamento de cultivo e pela maior produção (com base na genética e no manejo integrado). Enfim, se usamos 200% mais agrotóxicos e produzimos 200% mais, a quantidade de agrotóxico por tonelada de produto tende a ser a mesma.

        O que pode acontecer é um impacto ambiental maior, uma vez que parte dos agrotóxicos vai parar no solo ou nas águas. É certo que os agrotóxicos modernos tendem a ser degradados no ambiente de forma bastante rápida e também é certo que seu uso é feito de forma controlada, minimizando os custos (eles não são baratos, em geral). Mas ainda não vi um estudo compreensivo e amplo sobre esta questão no Brasil.

        O ponto central aqui ê: os transgênicos NÃO SÃO OS RESPONSÁVEIS pelo aumento do uso de agrotóxicos, mas a intensificação da agricultura. Neste meio tempo, os casos de intoxicação por agrotóxicos ficaram estáveis, com uma discreta tendência de queda, apesar do aumento de 200% no uso. Os casos de intoxicação alimentar raramente passam dos 10 por ano; A maioria dos casos de intoxicação por agrotóxicos agrícolas vem do manuseio e das tentativas de suicídio, o que é um quadro preocupante e sombrio. É isso que tem que ser enfrentado, em consideração aos agricultores e aos nossos irmãos que o desespero leva a uma atitude suicida. Sou por isso contra a fantasia de que estamos morrendo intoxicados com agrotóxicos e, sobretudo, contra o uso desta fantasia para bombear discussões ideológicas.

        Para uma leitura sobre a intoxicação por agrotóxicos, sugerimos a leitura de nosso texto, baseado nos dados oficiais do país e não nas impressões individuais ou na “literatura” dos blogs alarmistas:
        http://genpeace.blogspot.com.br/2015/03/agrotoxicos-tamanho-real-do-problema-e.html

        Minha recomendação será sempre: avalie dos dados concretos, compare opiniões, não se deixe levar pela opinião do seu grupo, ou você pode estar comprando gato por lebre. O conhecimento, afinal, é a base para qualquer decisão informada e afasta a crendice em fantasias: wer nichts weiss, muss alles glauben (http://www.amazon.de/nichts-wei%C3%9F-muss-alles-glauben/dp/3902404930).

  2. Roberto Weber disse:

    Quem acreditou que os transgênicos iriam provocar uma redução do uso de agrotóxicos acredita em tudo, como diria Wellington. O que os fornecedores de transgênicos nunca disseram à população é que os mesmos são produtos geneticamente modificados para SUPORTAREM UMA CARGA CADA VEZ MAIOR DE AGROTÓXICOS. Sem esquecer que os produtos agrícolas geneticamente modificados foram TODOS criados por FABRICANTES DE AGROTÓXICOS, para que? Para vender cada vez mais agrotóxicos, ora!

    • Paulo Andrade disse:

      Roberto, as variedades transgênicas são tolerantes, não resistentes, aos herbicidas. é só uma questão de linguagem, de jeito nenhum! Cada variedade tem um limite de tolerância, ela não aguenta cada vez mais agrotóxico, não é nada disso. O que é importante é que com a aplicação de agrotóxico suficiente para matar as ervas daninhas, o milho ou a soja GM não morrem. Se as ervas daninhas começarem a ficar mais resistentes, a variedade não serve mais, porque NÃO É POSSÍVEL aumentar a quantidade de herbicida ou ela morre..
      Não existe, portanto, esta história de plantas que resistem a níveis cada vez mais alto de herbicidas. Você apenas repete o que esta dito em vários sites da internet, mas a realidade é outra.

  3. Renato Kern disse:

    Sou contra os agrotóxicos, mas não contra os transgênicos, que trouxeram mais produção e mais comida na mesa tanto do consumidor como do agricultor. Mas acho que o aumento de agrotóxicos se deu mais pela condição de termos atualmente 2 ou até 3 safras por ano de alguns vegetais, ou seja, na mesma quantidade de hectares são plantadas até 3 vezes mais que em tempos passados, aumentando assim o uso dos agrotóxicos.

    • Paulo Andrade disse:

      Você está certo: a intensificação da agricultura é que determina o maior uso de agrotóxicos, não tem nada a ver com a adoção dos transgênicos. Esta aumentos 1266% entre 2000 e 2010 e o uso dos agrotóxicos só subiu 200%. E a maior parte do que é usado nada tem a ver com a tolerância dos transgênicos aos herbicidas (embora o glifosato seja um campeão de vendas).

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