A arte da ignorância e a selfie do ovo da serpente

múltiplas máscaras504
O título tem um elemento irônico, é certo. Mas não muito. Ignorância não é arte, a não ser por um artifício linguístico para expressar a expansão de seu território no presente. Pode parecer um contrassenso afirmar que a ignorância é maior hoje do que foi no passado. Afinal de contas, já sabemos que a Terra não é o centro do universo, que o mundo não acaba na linha do horizonte do oceano, não queimamos supostas bruxas e hereges em fogueiras. Mas, talvez seja prudente não esquecer, temos nossas ignorâncias presentes, que, não raras vezes, são apresentadas como se verdades fossem, e defendidas com a convicção e fúria de um inquisidor. Além disso, a ignorância também se diz de muitas maneiras, não significando apenas o desconhecimento ou conhecimento equivocado de algo. Há outra forma de ignorância que causa tantos ou maiores malefícios: a ignorância do outro, tomado aqui em um sentido amplo, abrangendo todas as formas de vida na Terra.

Vivemos enredados em uma situação paradoxal. O desenvolvimento de novas tecnologias de informação e comunicação aproximou os habitantes do planeta como nunca, mas é uma aproximação de um tipo peculiar: frágil, ambígua, difusa e centrada fundamentalmente no “eu”. Somos convidados a todo instante a dizer o que estamos pensando, sem precisar pensar muito sobre isso, a compartilhar nossas experiências que, na verdade, não são propriamente “nossas”, mas as do “self”. Eu no mundo o tempo todo, em todas as formas. O que estou comendo, o que estou fazendo, onde estou, com quem…mas, sobretudo, a expressão do “eu”. O outro entra como coadjuvante para ilustrar e, eventualmente, valorizar a minha “selfie” e o meu “self”.

Somos convidados a nos engajar em campanhas e mobilizações virtuais e de rua todos os dias, por pessoas que conhecemos ou não, por entidades mais ou menos obscuras, cujos laços de experiência real conosco são, muitas vezes, absolutamente nenhum. A diluição da experiência vivida em selfies, “reflexões” instantâneas (algo equivalente a um círculo quadrado), compartilhamentos que partilham muito pouco criam um caldo de cultura um tanto bizarro, do qual, tem-se a impressão, pode sair qualquer coisa, e não necessariamente algo positivo.

Em todas essas formas de ignorância há um elemento em comum: a falta de atenção sobre o que acontece ao redor (da qual a falta de atenção no outro é uma das expressões) e a auto-referência levada ao extremo. Some-se a isso a campanha diária e massiva da criminalização da política e o resultado final dificilmente será algo parecido com uma democracia. Cabe recordar quais são alguns dos principais ingredientes desse caldo de cultura: submissão da política e da democracia ao capital financeiro e ao poder econômico, criminalização da política e de quem faz política, precarização de direitos e da vida comunitária e destruição ambiental. Se fosse possível fazer uma selfie deste cenário com cada um de nós em primeiro plano, talvez ficasse mais nítido o perigoso ambiente que parece estar sendo cultivado ao nosso redor.

Anúncios

Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
Esse post foi publicado em Política e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s