Embarcaremos de novo, com Silvana, para sempre

silvanaklein

Por Katarina Peixoto

Os táxis pegam e entregam passageiros. Os taxistas acreditam no que escutam no rádio. A tropa de choque está nas ruas esperando os manifestantes contra o aumento da passagem de ônibus. A culpa é da Dilma, até pelo vazamento do salão de festas do condomínio. Em reunião, não sabemos a quantas andam os vazamentos dos apartamentos, mas devemos saber. Os centavos são corruptos. Tudo aumentou e a situação econômica e política do país está insuportável e muito perigosa. Tudo é ruim e a mentira triunfa. Os criminosos jantam felizes, contam o que negociam e com o que ganham.

E Silvana Klein morreu. Caiu um avião.

No meio de tanta mentira, a notícia de sua morte pode nos enganar, até que os destroços do avião nos vêm em abraços e beijos e amigos e gente de verdade. Como é Silvana. Caiu um avião, isso não tem rádio nem jornal que consiga manipular.

Silvana Beatriz Klein era uma gigante. Dirigente política exemplar, feminista, mãe da Isadora e de animais domésticos. Deixou órfãos militantes gays, feministas, companheiros do Sintrajufe, que se revezaram no hospital num ritual de solidariedade, amizade e lealdade que somente gente de verdade é capaz de fazer. Um velório cheio de lilás e olhos inchados. Silvana, não. Ela enfrentou o machismo, a direita, a mentira, a sordidez, a privatização, a perda de direitos, o não-reconhecimento de direitos legítimos. Agregava e formava, coisa que gente exemplar faz.

Não éramos amigas, mas para mim, éramos. Silvana é séria, inteira, íntegra, verdadeira.

Quando recebeu o diagnóstico, há coisa de um ano, a reação, mistura de esperança e confiança, era que seria mais uma paciente crônica do monstro, e era isso. Qual o monstro que Silvana não enfrentaria e derrotaria?

Aviões caem. O câncer vence, às vezes. E causa esses buracos no mundo, preenchidos, nem que provisoriamente, com lágrimas, abraços alternados, amigos despedaçados, família e familiares agregados e formados por Silvana, alternando o seu cansaço, a sua dor, com a solidariedade, essa poderosa arma contra todos os monstros.

Em meio a tanta mentira e mesquinhez, quando a direita mais reacionária e monstruosa arregaça as mangas para criminalizar o que gente como Silvana significa, estávamos lá. Uma reunião de despedida em que os que não se vendem, nem compram, nem negociam o inegociável estavam, estiveram e estão. Com ela, a gigante Silvana.

Caiu um avião. Esta é a verdade. O resto, a caminho e fora dali, está vazando de mentira, sordidez, covardia e câncer. Obrigada, Silvana, Zé, Maneco, Fernando e Isadora. Seguimos juntos. Embarcaremos de novo, com Silvana, para sempre.

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
Esse post foi publicado em Direitos Humanos, Justiça, Política e marcado , . Guardar link permanente.

4 respostas para Embarcaremos de novo, com Silvana, para sempre

  1. Nixon vieira Malveira disse:

    Emocionante, katarina. Conseguistes captar e transmitir a sensação e a percepção da dor pelas belas palavras, que emolduram a passagem de uma guerreira.

  2. Deise disse:

    Mulher, com leveza de alma
    Delicadeza, gentileza
    Guerreira, com força e liderança
    Acalentava e Sacudia
    Tinha o dom de ser ” Silvana Klein”
    Sempre, Presente!

  3. vera mirales disse:

    Presente, guerreira,mãe, mulher, inteligente, grande ser humano. Trilhando caminho lilases e vermelhos.

  4. karine souza disse:

    Mulher guerreira, amiga um privilégio foi ter convivido com esse ser humano exemplare.saudades

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