A hora da estaca

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Ayrton Centeno (*)

“Foi como um milagre; diante de nossos próprios olhos, em menos de um segundo, todo o corpo se transformou em pó e desapareceu de nossa vista”. (Drácula, de Bram Stoker)

Cinquenta e quatro milhões de brasileiros e brasileiras tomaram este domingo ensolarado de outubro nas mãos com enorme cuidado. Havia uma missão e uma necessidade. Era preciso devolver a farsa aos farsantes, a prepotência aos prepotentes, o deboche aos debochados, o retrocesso ao retrocesso, as calúnias e infâmias às forças que as conceberam e encenaram. Para restituir a razia neoliberal dos anos 1990 ao seu exílio. Antes da noite descer, a tarefa estava cumprida. Bem antes das 12 badaladas que separam o dia que morre do dia que vai nascer soube-se, afinal, que a escuridão fora engolfada pela própria escuridão.

Neste cintilante 26 de outubro, os eleitores partiram de casa portando suas armas: voto e vontade. Juntas, transformaram-se, diante da urna, em um instrumento de redenção. Mas foram além. Simultaneamente exorcizou-se o regressismo que acenava com a restauração do Velho travestido de Novo, com o Passado fantasiado de Futuro.

O serviço foi realizado com a luz solar como cúmplice pois, como adverte a lenda, é quando o mal dorme na sua tumba. Vontade e voto viraram estaca enfiada à força de martelo no coração da miséria moral que nos assolou nestas últimas semanas.

Quando a madeira rompeu a carne, houve um esgar, o pescoço se retorceu, as mandíbulas avançaram, os caninos se projetaram e as mãos ergueram suas garras além do esquife. Mas era tarde demais.

Morreu, de morte matada, um tipo de política que se vale mais do grito do que da palavra, mais da ameaça do que da retórica, mais da intimidação do que da razão. Que traficou para a campanha uma intolerância de corte fascista, predisposta desde sempre a ignorar o Diferente, o Outro, para negar sua cidadania. Morreu, parece, um tipo de jornalismo que usa o biombo da inquestionável liberdade de imprensa para perpetrar crimes contra a democracia que assegura esta mesma liberdade de publicar.

Morreu sob a capa da mudança, um projeto de desfibramento do Estado para repô-lo na condição de mero serviçal das divindades do Mercado. O mesmo processo que descarnou a nação até o osso duas décadas atrás. E que urdia o dessossamento dos bancos públicos – fiadores e indutores do desenvolvimento – e o conseqüente achatamento ou proscrição dos programas sociais que transformaram o Brasil.

Morreu o preconceito contra o pobre, o nordestino, o negro, o índio, a mulher, o homossexual. Morreu um furor midiático que não hesitou diante de nenhum dos abismos que se abriram a sua frente: o do ridículo, o da mentira, o do ultraje. Uma máquina de destroçar reputações incapaz de perceber sua própria derrocada.

Alguém poderá dizer: mas será mesmo que tudo isso morreu? E terá razão. A morte política permite ressurreições. Como, durante algum tempo, estratégias canalhas tiveram certo grau de retorno, nada impede que alguém as exume da cripta e as ponha a andar novamente. Ou seja, os tempos que estão a caminho irão cobrar dos vitoriosos, mais do que cautela, mobilização. Além de voto e vontade, vão cobrar rua. Presença de rua. Muita. Quatro anos de questionamento e autoquestionamento. E participação constante, sem delongas e sem vacilações. Ação contra reação. Luz contra as trevas.

Por enquanto, porém, a estaca está cravada e o vento já traz, dos sinos ao longe, o dobre de Finados. O 26 de outubro não sorriu para determinadas figuras, projetos e práticas. Mas seu dia já os aguarda. Está chegando o 2 de novembro e a terra os espera. Que descansem em paz. Se puderem.

(*) Jornalista

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