A volta do jardineiro infiel

muito-alem-do-jardim II

 

A criatura de Kosinski é o espectro que sobrepaira a campanha eleitoral do Rio Grande do Sul. Mas existe uma diferença. O doce Chauncey é autêntico. O que diz, diz com sinceridade. Não visa vantagens.  Sartori elevou a vacuidade a um estágio superior de arte. Vende um queijo suiço e entrega apenas os buracos.

Ayrton Centeno

Quando a vida imita a arte, coisas estranhas acontecem. Mais assombroso ainda se a imitação se dá em série, como se a arte riscasse um norte para a vida seguir e os frutos serem colhidos. Alguém talvez lembre de um certo Chauncey Gardener, protagonista de uma comédia de erros brutais. Gardener é uma invenção do polonês Jerzy Kozinski (1933-1991), autor de O Videota, transposto para o cinema sob o título Muito Além do Jardim, dirigido por Hal Ashby em 1979. Na tela, Peter Sellers encarnou um irrepreensível Chauncey. Fez sucesso. E faturou uma penca de prêmios por este estudo mordaz e implacável sobre a alienação no mundo contemporâneo. Quem viu, sabe. Quem não viu, não perdeu por esperar. É que Chauncey está de volta. E podemos saudar: “Buenas, Chauncey!”

Chauncey nunca colocou os pés além de sua porta. Passou a vida fazendo duas coisas: cuidando de plantas e vendo televisão. Sempre viveu enclausurado no seu minúsculo mundo físico e mental. Nada sabe além do jardim. Ao atingir a meia-idade, a redoma se quebra. Despejado após a morte do pai adotivo, é atropelado pelo carro de uma ricaça. Que o socorre, abriga e encontra em cada frase banal do desconhecido uma metáfora plena de sabedoria. Logo, Chauncey e suas falas minimalistas são entronizados na antessala do poder do império americano. O tolo torna-se conselheiro presidencial. Vira celebridade.

Indagado pelo presidente sobre a conveniência de usar incentivos temporários para fomentar o crescimento, Chauncey responde: “No jardim, o crescimento tem as suas estações. Primeiro vem a primavera e o verão. Mas nós temos o outono e o inverno. Então, vem a primavera e o verão novamente”. A baboseira de Chauncey é interpretada como conceito oracular sobre o respeito ao tempo certo para alavancar o desenvolvimento econômico da nação. Cá entre nós, esta mixórdia não soa familiar? Sim, porque, a criatura de Kosinski é o espectro que sobrepaira a campanha eleitoral do Rio Grande do Sul.

Mas existe uma diferença. O doce Chauncey é autêntico. O que diz, diz com sinceridade. Não visa vantagens. Apenas expressa o mínimo que sabe e da única maneira que consegue. Os outros é que transformam suas platitudes em sacadas de gênio. Aqui, na vida real, é uma estratégia, um faz-de-conta, uma conveniência. É uma persona, uma encenação. Quem afivelou a máscara do jardineiro foi José Ivo Sartori. Sua retórica é chaunceriana, mas suas intenções nem um pouco. A parte desagradável desta modalidade de jardinagem eleitoral é que o jardineiro promete rosas mas entrega espinhos. Portanto, não se espere fidelidade deste cultivador peculiar.

Assim foi com outro cover de Chauncey, este mais discreto. Em 2002, Germano Rigotto refugou a politização, apostou na frivolidade e desembarcou no Piratini a bordo de um programa tão denso quanto um capítulo dos Teletubbies. Como é mais fácil ser um candidato vazio do que um governador idem, Rigotto feneceu. Deixou como obra mais memorável uma incursão kafkiana no mundo contábil, segundo a qual o funcionalismo teve que contratar empréstimos no Banrisul para receber os próprios salários. Em 2006, sequer chegou ao segundo turno. Virou um fósforo riscado até para seu partido.

Sartori construiu um Chauncey mais veraz. Seu embromation é mais lapidado. Com um chapéu coco e um guarda-chuva, pouca gente o distinguiria do original. Perfeccionista, para tornar mais notável o processo, ele jogou em cárcere privado, fechada a sete chaves, sua própria jornada de 40 anos de PMDB.

Faz-se de salame sobre a vida partidária pregressa. Sobe nas tamancas ao ser julgado pelo que fez ou deixou de fazer, os erros e os vacilos, as companhias que abraçou, os muitos governos de que participou ou apoiou. Ai de quem quiser trazer sua trajetória à lume. Adquire foros de ultraje gravíssimo. Ele não existia. Não era. Não estava no mundo. Nunca teve partido. Nunca teve nada a ver com nada. É um ectoplasma. Seu passado foi abduzido por um OVNI que sobrevoou a barragem das Marrecas.

Mas, como pontificou em entrevista, generosamente concede uma exceção. Pode-se mexer no seu passado mas é preciso falar de bem! Obedecendo-se a esta diretriz invulgar será a primeira vez na crônica dos debates eleitorais do planeta Terra em que o adversário terá a oportunidade de fazer ponderações construtivas como, por exemplo:

— Bela aquela praça de pedágio que você e Dom Britto implantaram em Farroupilha, excelso Sartori!

E a réplica:

— Bela, não, candidato! Não admito ofensas pessoais! Belíssima! Belíssima!

Ou então:

— Devo dizer, esplêndido Sartori, que a renegociação que vossa excelência e Dom Britto fecharam da dívida pública estadual em 1998 conduziu o Rio Grande ao êxtase!

E o revide:

— Não aceito baixarias! Novamente, o adversário insiste em apequenar nosso feito. Nirvana! Nirvana! Nada menos do que o Nirvana!

Muito Além do Jardim IA exemplo da inspiração ficcional, Sartori elevou a vacuidade a um estágio superior de arte. Vende um queijo suiço e entrega apenas os buracos. É o que transparece no inacreditável quadro La Urna, da RBS TV, documento para posteridade a atestar a inapelável decadência da política riograndense. Algumas pessoas, equidistantes do embate, sentiram-se envergonhadas diante da sorridente nudez do candidato.

Mas, pelo andar da carreta, o Rio Grande encara 2014 como o Ano da Superação. Acabou de, pela primeira vez na História, parir uma aberração: uma bancada no Senado onde a maioria deve sua eleição não a um partido mas a uma empresa… Agora, magnetizado pelo oscilar do pêndulo, quer mais. Quer uma nova chance para Chauncey. Quer vê-lo caminhar sobre as águas.

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