Cansei de ser tratado como idiota

TED668

Renato Dalto (*)

Mais uma eleição, e mais um personagem suplanta a realidade, se impõe com sacadas de marketing e construção arquetipica de uma imagem e passa o lero lero sem dizer o que pretende, o que vai fazer, sem querer falar do passado e sem apontar para o futuro. É um gringo que faz mas não tem passado nem futuro. Aliás, não tem nem partido (o partido dele é o Rio Grande) e também nega as posições de seu vice. O gringo não tem nada, mas tem o mais poderoso aliado de todos: o anti-petismo. Aquele voto obscuro de quem só diz não e nada mais quer enxergar na frente. De novo, me vejo como cidadão diante de um estelionato eleitoral cujos ingredientes são a infantilização da política, o preconceito, o lero lero e a completa despolitização de qualquer discussão.

Confesso que cansei. Cansei de ser tratado como idiota por essas imagens que constroem candidaturas com pés de barro que logo ali, no governo, viram a mais completa frustração.

Estamos vendo pela terceira vez a eleição de um desastre anunciado. As duas anteriores elegeram Germano Rigotto cujo símbolo era um terno coraçãozinho que parecia capa de caderno de adolescentes e depois Yeda Crusius cujo nome saiu da condição de substantivo para adjetivo cercado de truculência e escândalos por todos os lados. Simbolicamente, Rigotto e Yeda tentaram a reeleição e sequer chegaram ao segundo turno, numa reprovação popular completa e absoluta. Governos frustrantes que, quatro anos antes, haviam se inaugurado com entusiasmo a bordo de uma sensação mesquinha plantada no senso comum: o PT havia sido derrotado.

É esse pensamento pequeno, preconceituso e anunciador da derrota da política que faz agora Sartori flanar rumo à vitória tendo como o maior aliado, de novo, o anti-petismo. Seu jeito bonachão e simples cativa os eleitores que, parece, não estão elegendo um governador, mas escolhendo um amigo. Mais que isso: estão simplesmente derrotando o PT. Não interessam as escolhas da biografia política do gringo, cujo passado remete a Britto, Rigotto, ao apoio ao governo Yeda. Ou seja, aliado, cúmplice e co-patrocinador de governos frustrantes. É nesse passado que ele não quer tocar. É um candidato sem passado, sem partido e que, perguntado sobre o futuro, não apresenta qualquer proposta.

Vi algumas aberrações políticas nessa vida de jornalista. Como repórter do Jornal do Brasil cobri a eleição onde Collor se elegeu presidente. Ele chegava aos lugares para comícios relâmpago, sempre em frotas de jatinhos e seguranças gigantes. Descia, dava meia dúzia de gritos e dizia frases desconexas e ia embora. No Rio Grande do Sul, por exemplo, forçava o sotaque e bradava: “Eu vou dar de rebenque neles”. O “neles” ninguém sabia direito quem era, mas valia como capitalizador da frustração geral e do pensamento mágico. É desnecessário dizer onde o governo Collor, ungido pela grande mídia, foi parar. Quando Collor caiu, sumiram seus eleitores. Ninguém o havia apoiado, como num passe de mágica. Achei que Collor serviria como exemplo e nunca mais viveria semelhante processo de idiotização da cidadania e da política. Infelizmente, estava enganado.

Eu vi o coraçãozinho de Rigotto passar o lero na população e levar o governo. Eu vi Yeda transformar a política num delírio. E vi depois, frustrado, que o truque da mágica do candidato que passa o lero e leva continua vivo. Ele atende agora pelo nome de Sartori. A política está infantilizada e o cidadão tratado como idiota. Mas, como ensinou Collor, é preciso dar de rebenque “neles”. O “neles” agora atende pelo nome de PT. Nessa onda, se anunciam as trevas patrocinados pela anti-política que leva à cegueira. Pelo discurso vazio que afaga o senso comum e depois frustra todo mundo no governo. Cansei. O filme se repete. Sinto-me, como cidadão, sendo tratado como idiota. Tomara que eu esteja enganado. Mas tenho a sensação que dias piores virão.

(*) Jornalista

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5 ideias sobre “Cansei de ser tratado como idiota

  1. Rodrigo Neto Dinnebier

    No primeiro turno, optei por Roberto Robaina como um “voto de protesto”, pois também sou professor da rede pública e considero que nossa categoria ainda não foi suficientemente valorizada no atual governo. Porém, ao ver e ouvir as propagandas de Sartori, lembro do tempo em que Rigotto atrasava e parcelava os salários dos servidores públicos (2004, para ser mais preciso). Por isso, minha escolha no segundo turno será um voto crítico em Tarso Genro, mesmo sabendo que uma eventual não-reeleição resultará principalmente de suas próprias escolhas políticas – como o não-cumprimento da Lei do Piso do Magistério, que o próprio governador assinou em 2008 quando era Ministro da Educação.

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    1. caio

      Tá certo, e o aumento de 76% nos vencimentos da categoria dos professores, onde fica? Neste mesmo período se recebi aumento salarial de 10 % foi muito. Sinceramente, acho que os professores deveriam olhar com mais cuidado. Nunca receberam valorização salarial tão significativa, a estrutura física das escolas melhorou muito e ainda estão cheios de dedos para votar no Tarso? Vota no PMDB e vamos ver onde vão parar os aumentos e as políticas de valorização dos servidores públicos em geral!!

      Resposta
      1. Rodrigo Neto Dinnebier

        Prezado Caio, votar no candidato do PMDB não é, absolutamente, uma opção. Porém, devemos nos ater aos fatos: uma remuneração de R$ 1000,00 para um profissional de curso superior em regime de 20 horas semanais ainda é muito pouco. É insuficiente para o próprio sustento deste profissional e de sua família. É insuficiente para que este profissional invista em sua própria formação e possa dar aulas em condições decentes. Porém, mesmo que Tarso não tenha cumprido a promessa de pagar o Piso Nacional ao magistério gaúcho, votarei nele. Desejo que ele possa, efetivamente e a despeito de todos os problemas, valorizar a nossa categoria.

  2. Clitia Martins

    Ótimo artigo, Renato. Eu apenas acrescentaria que o mesmo sentimento que você expressa em relação ao Sartori pode ser também aplicado ao Abominável Aécio Neves, que segue em muitas coisas o modelito Collor. É só prestar atenção…

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