Sobre nepotismos, salariozinhos e horários flexíveis

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A senadora Ana Amélia Lemos (PP-RS) tentou relativizar nesta sexta-feira (12) a acusação de nepotismo pelo fato de ter sido CC do próprio marido no Senado, em 1986, acumulando essa função com a de chefe da sucursal da RBS em, Brasília. A candidata do PP ao governo gaúcho disse ao portal Terra: “durante nove meses, fiz uma assessoria com um salariozinho para o meu marido. Não havia nenhuma incompatibilidade porque o salário na época era baixo”.

Segundo ela, a atuação ocorreu antes da Constituição de 1988 e da criação de regras claras sobre nepotismo. Além disso, os cargos de confiança poderiam ter horários flexíveis, já que não havia ponto. Os critérios da relação de assessoramento eram diferentes.

A referência ao fato de, na época, não existirem regras claras sobre nepotismo é frágil, para dizer o mínimo. Conforme revelou matéria do portal Suil21, no mesmo dia em que era nomeada para um cargo no Senado (09/06/1986), um editorial de ZH criticava o nepotismo e defendia a moralidade nas nomeações de cargos públicos. Ana Amélia era chefe da sucursal do jornal em Brasília naquele período. Recordando as palavras do editorial:

“A obrigatoriedade do concurso para provimento efetivo de cargos públicos é constantemente ignorada pela política do nepotismo, do apadrinhamento e do favorecimento”.

Ao falar sobre o tema, já eleita senadora, Ana Amélia afirmou à Agência Senado (14/10/2010): “De minha parte não admitirei atos secretos, funcionários fantasmas, nepotismo e recebimento de verbas indevidas”

Em relação à alegada flexibilidade dos cargos de confiança, não é isso o que diz a norma do Senado referente ao cargo para o qual a jornalista foi nomeada: regime de 40 horas semanais de trabalho, sendo de 8 horas a jornada diária, devendo a frequência ser atestada, quinzenalmente, pelo titular do Gabinete.

E a definição de seus vencimentos como um “salariozinho” também é discutível: “salário mensal de Cr$ 9 mil, (cerca de R$ 8.115,00 em valores atualizados)”.

E uma outra questão: Como colunista política e formadora de opinião de um dos principais jornais do país, Ana Amélia Lemos informou aos seus leitores que, num determinado período, estava lotada também no gabinete de um senador?

E como a jornalista exercia suas funções como chefe da sucursal da RBS em Brasília e, ao mesmo tempo, trabalhava oito horas por dia no Senado como secretária parlamentar do marido? A RBS tinha conhecimento disso?

Sobre maweissheimer

Bacharel e Mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Trabalho com Comunicação Digital desde 2001, quando foi criada a Agência Carta Maior, durante a primeira edição do Fórum Social Mundial. Atualmente, repórter no site Sul21 e colunista do jornal Extra Classe.
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Uma resposta para Sobre nepotismos, salariozinhos e horários flexíveis

  1. Paulo de Tarso Riccordi disse:

    NÃO É BEM ASSIM
    Mesmo que “na época” não fosse proibido o nepotismo, nem a RBS tivesse proibido seus empregados terem dois empregos, isso ainda não explica o central desse caso: é ético, é moral, é legal ser contratada e (bem) paga para um emprego de 8 horas diárias (40h semanais) e não cumpri-las?
    Durante o contrato com o Senado, no gabinete do senador seu marido, Ana Amélia era diretora do escritório da RBS em Brasília, já tinha coluna diária na Zero Hora, várias entradas diárias na programação da Rádio Gaúcha e participação diária nos noticiários do meio dia e da noite da RBSTV. Como se nota, ela cumpria integralmente sua jornada na RBS, seu empregador privado.
    Já no Senado, seu empregador público, em que horário trabalhava? Quantas horas cumpria? Trabalharia 16 horas diárias entre os dois empregos?

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