O Rio Grande do Sul é um Estado conservador?

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Em agosto de 2003, Flávio Koutzii escreveu um artigo intitulado A extrema-direita mora nos pampas, que tratava da reação ruralista a um processo judicial de desapropriação de 13 mil hectares de terra em São Gabriel. Essa reação, na época, foi marcada, entre outras coisas, por um panfleto anônimo, onde produtores rurais proclamavam “a superioridade da raça dos cidadãos gabrielenses e sugeriram o extermínio (por fogo) das centenas de sem-terra que se aproximavam, comparando-os a uma praga de ratos”. Na época, escreveu Koutzii, partiu da elite econômica gaúcha a afronta à Constituição que impôs barreiras e desvios a uma longa caminhada promovida pelo MST, em pleno inverno gaúcho, espichando-a por mais 200 quilômetros.

Quem viveu o governo Olívio Dutra deve lembrar bem episódios similares de reação conservadora a políticas de governo e a mobilizações de sindicatos ou movimentos sociais em função de várias pautas. Capitaneado pelos veículos do grupo RBS, o conservadorismo gaúcho impôs uma guerra sem tréguas ao governo Olívio desde o primeiro dia, quando um militante estendeu uma bandeira de Cuba na sacada do Palácio Piratini. A história é bem conhecida. A RBS e seus aliados políticos ainda não tinham digerido (e nunca digeriram, na verdade) a derrota de seu ex-funcionário Antonio Britto para aquele sindicalista bigodudo e seus companheiros, amigos dos sem terra, dos sindicatos, movimentos sociais e outros bichos estranhos à paisagem política e social então dominante no Estado.

Após o governo Olívio, veio o governo do pacificador Germano Rigotto e, depois, a radicalização neoliberal com o “novo jeito de governar” de Yeda Crusius, que acabou sendo um desastre completo. O PT voltou ao governo com Tarso Genro que, lidando com um Estado com graves dificuldades financeiras, recusou o caminho do choque de gestão e do Estado mínimo, e investiu na recuperação da capacidade formuladora do Estado, na recomposição dos quadros de servidores do Estado, por meio de diversos concursos e reajustes salariais, na mudança do modelo de pedágios instaurado por Antonio Britto, na retomada da participação popular nas esferas de governo, entre outras medidas que recusaram a fórmula de desmonte do Estado. Apesar de todos os problemas, os indicadores do governo Tarso são amplamente superiores aos do governo da tucana Yeda Crusius.

Eis que, em 2014, as pesquisas de opinião apontam a possibilidade dessa fórmula do choque de gestão e da diminuição do Estado voltar ao governo, com outro ex-quadro da RBS, a senadora Ana Amélia Lemos. A população do Rio Grande do Sul estaria com saudades dos governos de Antonio Britto e Yeda Crusius, nos quais as ideias e propostas da candidata do PP se espelham? Como explicar esse possível sentimento considerando o desastre que foi o governo de Yeda Crusius? Falta de memória, falta de conhecimento dessa proximidade? Um conservadorismo atávico sempre pronto a reagir a qualquer tentativa de fazer o Estado avançar para além dessas fronteiras?

Não há respostas prontas e simples a essas questões. Pesquisas também mostram que uma parte significativa do eleitorado gaúcho não tem qualquer informação sobre as ações do atual governo. Nenhuma informação, nem boa, nem ruim. Os instrumentos de comunicação de governos costumam sem limitados para dar conta dessa exigência. Quando os grandes meios de comunicação privados, como é o caso da RBS no Rio Grande do Sul, são defensores do Estado mínimo e adversários ferrenhos do setor público, o fluxo de informação para a população é sempre seletivo e interessado. Essam equação fica mais complexa ainda quando esses grupos midiáticos passam a ter candidatos saídos de suas próprias fileiras. Nas eleições deste ano, dois dois principais comentaristas políticos da RBS, Ana Amélia Lemos e Lasier Martins, disputam o governo do Estado e o Senado.

Desinformação, falta de memória e conservadorismo, até que ponto esse caldo de cultura é responsável por manter o Rio Grande do Sul num movimento pendular que parece querer fazer o Estado voltar atrás em reação a qualquer avanço que desafie as fronteiras impostas por seus auto-declarados donos. A reação que Flávio Koutzii apontou em 2003 segue viva, apresentando-se sob um novo disfarce. O conservadorismo, que ainda lidera certos setores no Estado, prevalecerá e, mais uma vez, o RS andará para trás após um período progressista, ou as forças que buscam constituir um novo pacto político conseguirão romper essa perversa aliança político-midiática que neste ano apresenta-se fantasiada de esperança?

Sobre maweissheimer

Bacharel e Mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Trabalho com Comunicação Digital desde 2001, quando foi criada a Agência Carta Maior, durante a primeira edição do Fórum Social Mundial. Atualmente, repórter no site Sul21 e colunista do jornal Extra Classe.
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5 respostas para O Rio Grande do Sul é um Estado conservador?

  1. Bom dia. É só ouvir a entrevista do Lasier Martins na rádio Guaíba em que ele mais parecia um vendedor da FORD. Na realidade a RBS, assim como a Naspervejaglobo, não passa de um veículo dessas mega empresas e dos grandes bancos internacionais. Elas sustentaram a ditadura e agora dispensaram os generais de 5 estrelas.(Golbery, Borges Fortes, Newton Cruz e secretáriozinhos como o Bolsonaro)!!

  2. Luis antonio disse:

    Bem, que não conhecem história está claro quando se orgulham de uma revolução (do latifúndio) perdida em 1845. Se deixar levar e governar pela rbs faz parte da falta de conhecimento de como funciona a mídia com seus históricos vínculos com o conservadorismo gaúcho. Agora o que falta ao Olívio, no meu entender, é deixar claro como foi o caso Ford. Dizer que foi o ACM +FHC que deram aqueles milhões que a multinacional queria saquear do RS e que a justiça já determinou em primeira instância, ganho de causa ao estado no processo movido contra a Ford.

  3. Jobson disse:

    O pacto federativo sucateou os estados, principalmente o RS, que se tornou um matadouro político, como já disse alguém em outro blog.
    Essa é a razão pela qual ninguém conseguiu se reeleger governador. Quem vota na Ana Amélia assim o faz por ela ser um “novidade” e menos por ideologia. Ou por acaso alguém acredito que 34% da população do RS é feita de ruralistas ou grandes proprietários de terras? A massa populacional está nas cidades e pouco se preocupa com a demanda ruralista do RS – nesse sentido, as ações que incentivam ou ajojam os ruralistas vêm da União e não do estado do RS (Emater, etc, é para pequena agricultura).
    De qualquer forma, pode apostar que se eleita, Memélia não se reelegerá.

    • Nelson disse:

      Se entendi bem, você quis dizer que [a falta] de um “pacto federativo [real] sucateou os Estados, principalmente o Rio Grande do Sul”.
      É isso, meu caro Jobson.

  4. Nelson disse:

    Infelizmente, lamentavelmente, desgraçadamente, é possível que a filhote da RBS e da ditadura civil-militar acabe ganhando a eleição.
    Mostra de que o gaúcho não é tão inteligente ou esperto quanto seu imenso orgulho e seu desmesurado ego o fazem imaginar que seja.
    Mostra de que não é só no Nordeste que existem alienados, tabacudos, burros…. Assim nós costumávamos, durante muito tempo, acusar os nordestinos em virtude dos resultados das eleições naquelas plagas, sempre em prol de candidatos conservadores.

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