Mud: uma fábula sobre o fim da infância

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Por Katarina Peixoto

O filme ganhou a bizarra versão brasileira de “Amor Bandido”, mas poderia ser chamado, talvez, de “o cara da lama”. Mud, do ótimo Jeff Nichols (diretor do também estupendo O Abrigo), é um filme com a mesma lente do anterior: é atemporal de tal maneira que, mesmo sabendo que estamos no presente, isso não contamina a percepção de que estamos lidando com uma história fabulosa. E isso sem que o diretor se apaixone por aquilo que está fazendo, isto é, sem chatice. Tenho uma queda por crianças e adolescentes que são bons atores. Atuar, de verdade, é uma das coisas mais difíceis de se fazer e requer mais do que disciplina, maturidade e gênio. Não sei dizer o que é, mas quando acontece, tudo o mais acontece. Claro, um diretor de verdade é determinante. Nichols é isso.

Neste filme, ele nos conta a história de uma passagem, de uma travessia do mundo perceptivo infantil para o adolescente. Sobre tirar a casinha de cima da árvore e transformá-la num barco habitado e coabitado por estranhas figuras híbridas e ambivalentes, como o são os adultos.

Ellis (vivido pelo estupendo Tye Sheridan) e seu amigo Neckbond, ambos com 14 anos, envolvem-se com um fugitivo da polícia. “Mud”, o fugitivo vivido pelo inacreditável Matthew McConaughey, matou um cara que machucou o amor de sua vida, de uma vida inteira, a Júniper (Reese Whitherspoon). Temos de presente o esplendoroso Sam Shepard, com a densidade que lhe é tão peculiar, para nos dizer que estamos vendo um trabalho sério.

O filme é uma fábula sobre confiança, perda de confiança, sobre aprender a amar, mesmo que ao custo de se dispor a partir o coração. É sobre perceber que em todo conflito há duas perspectivas, é entender que amor é uma coisa da e na e pela vida e que, por isso, como ela, pode ser difícil, doloroso e redentor – nem que seja do sentido das coisas, nem que seja do sentido das coisas.

Mud é uma metáfora de que há lama e sujeira em tudo e em cada um de nós. E que crescer e sair da infância é perceber, entender e sobretudo viver isso. É uma obra translúcida de realismo fabuloso, sobre amizade, lealdade e aprender a crescer. O mais esplendoroso é que temos tiroteio, bandidos e vítimas. E que isso não torna ninguém mais limpo, seco e imaculado. O amor de verdade pode machucar. O herói marginal não existe. Todos mentem e nem por isso o mundo é feito só de canalhas. Um matador é um matador, e não deixa, por isso, de ser gente. Ele deixa de ser gente se for somente isso (não há qualquer relativismo moralmente gelatinoso na coisa toda, o que só fortalece a sua beleza). A amizade é confiança, sem reflexão a respeito. O amor, idem, com um agravante: ele requer um tipo de fusão, uma espécie de inundação, a saída da ilha.

Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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