Os heróis de Amarildo

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Os 10 sádicos não são uma exceção como se vai querer dizer. Eles não fugiram à cultura e tradição de sua instituição e não fizeram menos do que são estimulados a fazer, cotidianamente apoiados pelos discursos e pensamentos da sociedade brasileira. A sociedade brasileira legitima e aplaude a Guerra, afinal são pobres e negros a maioria dos 60 mil mortos por ano, a maioria inclusive com ficha policial, como é o costume dizer para se provar de que não se matou nenhum inocente.

Por Alberto Kopttike (*)

Nesse momento dez 10 policiais militares do Rio de Janeiro estão sendo injustamente punidos por torturarem e matarem Amarildo. Não que faltem provas para imputar cada um deles, um nexo concreto com os acontecimentos, afinal inclusive uma testemunha presenciou a sessão de tortura (e por isso teve que se mudar com toda a sua família para outro estado, protegida pela Polícia Federal). A injustiça reside no fato de que eles não poderiam ser punidos por fazerem aquilo para o que foram treinados e por terem executado exatamente o que a sociedade esperava que eles fizessem.

Ao invés de punidos, expulsos da PM e talvez até presos, deveria se erguer estátuas em homenagem aos 10 policiais que se expuseram ao risco de enfrentar os traficantes. Notícias deveriam estar sendo publicadas em suas defesas, discursos enfáticos deveria estar sendo proclamados nos Parlamentos país a fora, e alguns programas de TV, especializados no assunto, deveriam dedicar um programa especial para homenageá-los, com seus performáticos apresentadores descendo lágrimas em sua memória. Ruas e praças, ou melhor, Avenidas e Parques, deveriam receber os seus nomes e bustos, exatamente como se fez com os seus predecessores, os ditadores militares.

Como pode alguém ser punido por executar a sua missão?! Afinal no que pensavam enquanto faziam o corpo daquele negro se destroçar? Obviamente excluindo qualquer possibilidade de interesses escusos (o que seria por demais fantasioso) e pressupondo a boa fé dos policiais, pensavam eles que estavam cumprindo sua missão em nome da sociedade carioca e brasileira, de que estavam fazendo o que deles se esperava que fizessem, um teste de fogo para os mais novos demonstrarem que estavam aptos a vestirem aquela farda.

Os 10 sádicos não são uma exceção como se vai querer dizer. Eles não fugiram à cultura e tradição de sua instituição e não fizeram menos do que são estimulados a fazer, cotidianamente apoiados pelos discursos e pensamentos da sociedade brasileira. A sociedade brasileira legitima e aplaude a Guerra, afinal são pobres e negros a maioria dos 60 mil mortos por ano, a maioria inclusive com ficha policial, como é o costume dizer para se provar de que não se matou nenhum inocente.

O caso Amarildo, como tantos outros, não mudará em nada a hipócrita Guerra contra as Drogas. Seguirá a idéia de que se enchermos os cemitérios e presídios com os “vagabundos” vamos diminuir o número de pessoas que consomem às substâncias proibidas. Vamos continuar educando os jovens da periferia com safanões, tapas, coronhadas ou, quando necessário, choques, pauladas e tiros, para que eles saibam qual é o caminho certo a seguir.

Amarildo foi simplesmente mais um das dezenas que somem nas madrugadas das favelas do Brasil, torturados e mortos pelos seus desafetos com ou sem farda. O azar dos 10 policiais é que fizeram isso num raro momento de consciência da sociedade brasileira, em que o humanismo até pareceu se tornar uma realidade naquelas ruas cheias de jovens em junho.

Todos se mostrarão comovidíssimos com o bárbaro crime perpetrado pelos 10 policiais e exigirão a mais dura punição, mas continuarão defendendo a Guerra, na qual os algozes de Amarildo continuarão se considerando heróis, e não são?!

(*) Vereador (PT) em Porto Alegre

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Sobre rsurgente

Jornalista, Porto Alegre (RS), Brasil.
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4 respostas para Os heróis de Amarildo

  1. Há os consumidores das drogas, mantenedores do mercado e dessa ordem que exigem se mantenha, posto lhes preserva os privilégios de mando, exploração e gozo.

  2. Jarbas Vanin disse:

    Prezado Vereador Alberto Kopttike
    Sensacional e sensacionalista este seu artigo, em um momento delicado em que policiais estão sendo acusados de torturar e matar um cidadão no Rio de Janeiro, Você aproveita para fazer tabula rasa, colocando na conta da policia as 60 mil mortes que você afirma ocorrerem por ano, forneça a fonte deste número. Não resta a menor dúvida e você não pode duvidar que homens e mulheres, honrados, honestos que vestem a farda das Policias Militares, não coadunam com este tipo de comportamento criminoso e covarde praticado por estes policiais, mas não se faça de promotor e juiz, não generalize as condutas, pois você sabe e se não sabe deveria saber que no penal elas devem ser individualizadas e cada um responde na medida de seu ato, por tanto talvez e eu digo talvez algum deles seja inocente deste crime, o mesmo conceito que os policiais tiveram com o Amarildo, de acusa-lo, julga-lo, e executa-lo,, se no final do devido processo legal restar provado, você está tendo com esses 10 policiais militares, por tanto você não é melhor do que eles, é apenas um oportunista que achou um grande filão para buscar seus objetivos eleitoreiros, por que para melhorar a segurança pública efetivamente você não tem contribuído muito.

  3. Gabriel Amado disse:

    Excelente Reflexão!!
    Poucos conseguem ir a fundo em um caso deste. Exatamente, quem matou o Amarildo foi a guerra às drogas que por si só já é um fracasso. Este texto é um soco de realidade para aqueles que individualizam as ações para se eximir da co-responsabilidade perante aos fatos.
    Conheço muitos policiais com boa mentalidade, mas que são criticados por exercer uma conduta de paz numa polícia que promove a guerra.
    O Brasil está tendo um oportunidade única de questionar seu modelo de guerra(militar) nas resoluções de conflito.
    Parabéns pelo texto!!!

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