A economia em 2012 e as perspectivas para 2013

encruzilhada2 Por Paulo Muzell

Findo o ano de 2012, este começo de 2013 é hora do balanço, de lançar um olhar sobre o que aconteceu no passado recente e, também, de vislumbrar o cenário e os desafios que já estão aí, “batendo à nossa porta”. Uma breve retrospectiva histórica da trajetória das economias da Argentina e do Brasil – os dois principais países da América do Sul -, ao longo do século XX, é importante para que melhor se possa compreender o que acontece hoje.

Os dois países tiveram seus períodos de extraordinário dinamismo econômico em épocas distintas. A “era de ouro” da Argentina começou bem antes, nas últimas décadas do século XIX e se estendeu até o início dos anos vinte do século seguinte. Uma agricultura de elevada produtividade combinada com pesados investimentos em infra-estrutura, especialmente no sistema de transporte ferroviário foram fundamentais para o início da “arrancada”. A industrialização e a urbanização avançaram: em 1920, dois terços dos argentinos trabalhavam na indústria, no comércio e nos serviços. O crescimento populacional foi extraordinário e ainda assim a renda “per capita” cresceu em média 4% ao ano. Buenos Aires se tornou a grande metrópole do continente, sua principal referência educacional e cultural. Era comum um brasileiro em visita à Europa ou aos Estados Unidos ouvir com desconforto a observação: “Brasil? Exótico país tropical, muito bela sua capital, Buenos Aires!” A crise econômica mundial dos anos trinta marca o início do declínio. O país nunca mais conseguiu retomar aquele “ciclo virtuoso de prosperidade”.

Pois aqui no Brasil a Revolução de 30 marca o fim da República Velha e o começo da era Vargas, que criou a base do processo de modernização e industrialização do país. Um grande e novo impulso ocorre a partir de meados dos anos 50 com o início da construção de Brasília e a implantação do Plano de Metas de JK cuja ousadia otimista é sintetizada no seu arrojado slogan: “crescer 50 anos em apenas 5”.

A partir dos anos cinqüenta até meados dos anos setenta a economia brasileira foi uma das que mais cresceu no mundo. Na ótica do aumento do PIB sua teve sua “era de ouro”. Crescimento que beneficiou poucos: elevados lucros conviveram com baixíssimos salários. No fim do período o Brasil tinha um salário mínimo aviltante, um dos menores do mundo. A participação dos salários na renda do país caiu sensivelmente. A renda se concentrou. Os porta-vozes da área econômica da ditadura militar – Simonsen, Roberto Campos, Delfim Neto – não cansavam de repetir a cínica justificativa: primeiro o “bolo deveria que crescer, só depois seria possível distribuir”. Pois o “bolo” cresceu – e muito -, e as desigualdades e a miséria aumentaram.

No período seguinte, que vai de meados dos anos setenta até o final do século passado, o país foi vítima das políticas neoliberais. Sob as batutas da madame Thatcher na Inglaterra, de Bush (pai) nos Estados Unidos e aqui de FHC, penamos a “era do deus mercado”. Redução dos impostos dos ricos, mínimo de regulamentação e controle da atividade econômica, diminuição dos investimentos públicos e dos gastos sociais e, por fim, o desastre das privatizações. Em poucos anos foram transferidos ao setor privado nacional e internacional, a preços de banana, centenas de bilhões de dólares do patrimônio público brasileiro.

Nestes primeiros anos do século XXI a economia brasileira já experimentou um curto período de retomada da atividade econômica. Entre 2004 e 2010 a taxa média anual do PIB cresceu 5%, apesar da queda ocorrida em 2009, conseqüência da crise mundial que teve origem no estouro da bolha imobiliária americana. A partir de 2011, a economia brasileira volta a “perder velocidade”: cresceu apenas 2,7%. E os dados dos nove primeiros meses de 2012 confirmam a tendência descendente. Projeta-se para o exercício um crescimento modesto, que dificilmente ultrapassará 1%. Se a economia brasileira foi mal, a gaúcha teve um desempenho pior, os dados dos três primeiros trimestre do ano passado apontam para uma queda de 2,7% no PIB gaúcho.

Há, porém, fatos extremamente positivos no cenário regional e nacional do último biênio. O desemprego atingiu em 2012 – na região metropolitana de Porto Alegre e no país – o nível mais baixo desde que o indicador foi criado. E mais: trata-se de um aumento do emprego qualificado, do trabalho formal. Os salários reais seguem crescendo e persiste um consistente aumento do salário mínimo nacional.

O modesto crescimento do PIB nos últimos dois anos foi sustentado pelo aumento do consumo das famílias e do governo. O fato negativo, preocupante, é a redução do investimento total, a produção dos chamados bens de capital, aqueles que produzem outros bens. Os economistas pomposamente definem o fato “uma queda na formação bruta do capital fixo (FBCF)”. Reduz-se a produção industrial brasileira. O setor da construção civil vai bem obrigado; já a indústria de transformação vai mal. O governo tem feito a sua parte: desonerou o IPI do setor automotivo; diminuiu a tarifa de energia elétrica especialmente do setor industrial; desonerou a folha de pagamento das empresas reduzindo alguns encargos sociais; diminuiu a taxa referencial de juros e a taxa de juros de longo prazo, a TJLP. Além disso, lançou o PAC 2, o PAC lojística e o PSI – Programa de Sustentação do Investimento que até o final de 2013 aplicará recursos num montante total de 100 bilhões de reais. E dá prioridade e tenta acelerar as obras do Minha Casa Minha Vida.

A grande indagação que fica neste início de ano é quais as reais perspectivas de 2013? Continuaremos a trajetória descendente ou conseguiremos iniciar a retomada?

Segundo a visão predominante dos analistas a economia americana – que responde por 30% do PIB mundial – deve fechar 2012 com um crescimento de 2%. Os níveis de desemprego são elevados, na faixa dos 8% mas a tendência é de redução. O grande desafio é a ameaça de uma enorme e crescente dívida pública que recentemente gerou um impasse político que quase paralisou o país. Há um justificado temor de um possível desequilíbrio fiscal. A crise da zona do Euro é ainda uma ameaça maior: os níveis de desemprego de alguns países são extremamente elevados e os sinais de recuperação lentos e débeis.

A última carta de conjuntura do IPEA, do mês de dezembro passado trouxe duas boas novas: em outubro, a indústria de transformação brasileira registrou desempenho positivo. Há, também, a expectativa da safra agrícola brasileira 2012/2013 ser recorde. Em contrapartida temos um grande desafio a ser enfrentado: a recente tendência de aceleração da inflação. O IPCA de janeiro atingiu 0,86% e a elevação nos últimos 12 meses superou os 6%. E o pior: esta é uma inflação ainda mais perversa: os preços dos alimentos e dos serviços pessoais, além dos aluguéis têm liderado os aumentos, penalizando as famílias de menor renda. O governo tem, também, feito sua parte no combate à inflação: reduziu as tarifas de energia elétrica e controla o preço dos combustíveis, mantendo-os abaixo dos níveis internacionais. A Petrobras reduz seus lucros, mas o país ganha com isso.

O mercado, é claro, não gosta. As aves do “mau agouro”, que voam por aí desde a era Vargas, falam através da grande mídia, na voz de seus “analistas” ou de ex-presidentes do Banco Central, aqueles mesmo da época da ditadura, com crescente insistência, que, inevitavelmente, a taxa referencial de juros deverá aumentar. Eles torcem por isso porque assim os lucros dos seus patrões – os bancos – vão engordar.

Sobre maweissheimer

Bacharel e Mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Trabalho com Comunicação Digital desde 2001, quando foi criada a Agência Carta Maior, durante a primeira edição do Fórum Social Mundial. Atualmente, repórter no site Sul21 e colunista do jornal Extra Classe.
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